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CADA QUAL NO SEU QUADRADO


Todo lugar tem sua coisa, toda coisa tem o seu lugar.


Talvez por sempre levar muito em consideração este antigo ditado, não consigo me acostumar com esta história de reunião entre torcedores, dirigentes e jogadores de futebol. Para mim, que já fui – dos 11 aos 19 anos – apenas um torcedor, lugar de torcer, de vibrar, de vaiar ou de xingar é a arquibancada. Acabou o jogo? Cada um vai cuidar da sua vida, seja o atleta, seja o fã do futebol.


Então, vocês já devem imaginar a minha indignação ao ver, primeiro, o constrangimento de profissionais do Corinthians sendo obrigados a se reunirem com membros de uma das suas torcidas uniformizadas (jamais as identifico como “organizadas” pois, se o fossem, não se envolveriam nestes e nem em tantos outros episódios de violência), como se o fato de serem pressionados os fizessem melhorar o rendimento.


Imagine você, meu amigo, chegando ao dentista, por exemplo, e lhe dizendo mais ou menos o seguinte: “Olha, doutor, ou o senhor resolve com a minha dor de dente ou eu vou acabar com a vida da sua esposa, do seu filho, da sua mãe. E se o senhor não resolver por amor, vai resolver pela dor”. Você acha que isso faria o profissional realizar um trabalho melhor ou, de repente, poderia pressioná-lo tanto a ponto de, talvez, ele piorar ainda mais? E eu nem estou entrando no mérito do crime via aplicativo de mensagens cometido contra Cássio e sua esposa por um marginal que, fosse este País apenas um pouquinho mais sério, a esta altura já estaria atrás das grandes, que é – ou deveria ser – o lugar de todo e qualquer bandido.


Se o fato com os corintianos acima já me irritou profundamente, imaginem então o que senti ao ver as cenas no Ninho do Urubu. Ao contrário do seu goleiro e também de Fágner, Gil, Willian e que tais, os jogadores do Flamengo/RJ – liderados por Everton Ribeiro – não toparam o absurdo que seria dar explicações a torcedores, e a diretoria rubro-negra, então, teve de desmarcar o encontro que ela mesma havia marcado. O resultado foram carros de atletas, como o de Gabigol, sendo chutados, e mais ameaças pessoais não só a ele, mas também a quase todos os seus companheiros.


Claro que não somos, nem eu e nem você, ingênuos a ponto de acreditar que as diretorias aceitam receber os “líderes” de torcidas apenas porque são democráticas e boazinhas. Sempre que um presidente ou um diretor de futebol abre espaço para este tipo de reunião o faz com interesses bem claros: quer dar um puxão de orelhas, quer dar um susto em seu elenco, mas deixa que este trabalho sujo seja feito por terceiros. Assim, eles acreditam atingir seus objetivos e, ao mesmo tempo, mantêm a imagem de mocinhos.



Também está claro que sabemos, tanto eu quanto vocês, que são as torcidas uniformizadas as que mais vão aos estádios, fazem as mais bonitas festas e mais apoiam os times. Contudo, isso não lhes dá o direito de invadir a vida pessoal ou de danificar o patrimônio do atleta ou do treinador, e muito menos de tentar atingi-los praticando seus atos criminosos a familiares e amigos. Tal situação somente acabará quando a Justiça no Brasil for tão ágil quanto ágeis são os dirigentes do nosso futebol quando permitem que tais pressões aconteçam.

Ou seja: nunca.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br