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Dança dos técnicos: O dia que Cilinho saiu e voltou no mesmo dia

Dança dos técnicos: O dia que Cilinho saiu e voltou no mesmo dia. Essa ida e vinda de Rogério Cen,i no Fortaleza, me lembrou de um episódio envolvendo o grande Otacílio Pires de Camargo, o Cilinho, um dos maiores treinadores com os quais eu convivi, um gênio do futebol, muito a frente do seu tempo e formador de grandes jogadores. Muito do que se fala hoje em futebol ele já falava nas décadas de 70/80.


Cilnho tinha grandes histórias, bonachão, atento a tudo e as novidades previa com facilidade as várias jogadas do seu time. Um dia quando treinava o São Paulo, ele me disse: "Quartarollo, o meu sonho é um domingo ficar pescando e meu time jogando, no Morumbi. Tenho mais de 50 jogadas ensaiadas e meu capitão vai ditando cada uma durante o jogo. Tudo já foi treinado, o jogo é o mais fácil" e morria de rir. É claro, estava brincando.


Mas da forma como trabalhava era quase possível isso acontecer. Uma vez cheguei cedo no Morumbi, não havia CT ainda, e notei que o time estava dividido em várias atividades com o excepcional preparador físico Bebeto de Oliveira. De um lado Pita com uma bolinha de tênis fazendo embaixadinha, do outro Müller e Careca dando tiros curtos de corrida, os laterais indo e voltando e Oscar e Dario Pereira treinando cabeceios em cruzamento defensivos.


"O que está havendo aí seu Cilinho? Oras, eles estão fazendo o que tem que fazer no jogo. Müller é muito forte nesse arranque para dentro do gol, Careca não precisa ficar correndo como um louco, Pita não precisa correr também, meus laterais têm que ajudar o ataque e meus zagueiros têm que armar o contra-ataque, não só tirar a bola da área". Ele tinha o cuidado de botar camisas de três cores diferentes no meiocampo e a cada cruzamento para Oscar e Dario ele gritava uma cor. Era em cima daquela camisa que eles tinham que devolver a bola. E era extraordinário, acertavam quase todas. Jogavam demais.


Mas quero contar a passagem de Cilinho pela Portuguesa de Desportos. Cheguei de manhã na Jovem Pan, já quase na hora do Jornal de Esportes, e o falecido José Carlos Carboni me pede para checar notícias da lusa já que o setorista Marcos Nunes de Barros estava doente, não podia trabalhar.


Liguei para o Canindé e a telefonista me jogou no Departamento de Futebol lá embaixo perto dos vestiários. Demorou um pouco e uma voz "cavernosa" me atendeu. Quis saber quem era e do outro lado da linha: "Aqui é o Cilinho, ex-técnico da Portuguesa" e eu: "Bom dia, Cilinho, mas que negócio é esse de ex-técnico?. "Pois, é. Acabei de pedir demissão. Só dei o treino da manhã. Chega".


"E eu, espera aí, Cilinho. Vamos gravar uma entrevista rápida então". "Pois, não. Vamos lá". Furo, que ótimo, Carboni ficou feliz e eu também. Acabei dando sorte. Mas à noite a coisa revirou. Veio a informação. Cilinho voltou atrás e continuou na Portuguesa. O furo durou apenas algumas horas.Tudo bem, faz parte, mas jornalisticamente foi bom. Fiz o meu trabalho.


Liguei para o Cilinho e ele me explicou. "Ah, resolvi ficar, disseram que as coisas vão mudar. Vamos ver" e eu muito atrevido: "Seu Cilinho, não sou ninguém para te dar conselho, mas se o casamento vai mal, se a gente larga da mulher de manhã, por mais que haja promessas e a gente goste dela, não dá para voltar à noite. Pode até voltar, mas não tão rápido. Isso só adia o problema. Vai ficar na mão dela".


Pouco tempo tempo depois, Cilinho foi demitido da Portuguesa e aí ele me liga e só diz uma frase: "Nunca mais vou esquecer aquele conselho. Fui traído". Desligou dando risadas, se dizendo um eterno aprendiz e me convidando para um churrasco. Esse tem história para contar. Nunca mais conheci um técnico como Otacílio Pires de Camargo.