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Capítulo 2: 2006, a Copa sem volta. Caçando Bilardo


É ano de Copa e então vou escrevendo algumas histórias sobre nossa cobertura na Alemanha-2006. Já teve o primeiro capítulo com as "trapalhadas" na ida. Até novembro outras Copas também entrarão no nosso Radar. Hoje tem uma história envolvendo o técnico Carlos Bilardo, campeão do Mundo com a Argentina, em 1986, no México.



A Jovem Pan contratou Bilardo para fazer comentários na Copa da Alemanha e até participar de algumas jornadas quando a sua Argentina fosse jogar. Gravava um comentário antes e outro depois do jogo. Era o combinado. Os demais no dia a dia entravam na programação esportiva e geral da rádio. Na época a Jovem Pan vibrava com o bom jornalismo de todos os lados e havia muito espaço para entrar em qualquer hora.



Chegamos à Munique e a Copa se aproximando e nada de Bilardo dar as caras. Telefone totalmente mudo e caixa postal cheia. Daí começou a cobrança da nossa retaguarda aqui no Brasil: "Localizem Bilardo. Ele tem que gravar os comentários para a gente. Até agora não gravou nenhum"



E os dias passando e Bilardo sumido. A cobrança começou mais forte: "Procurem por ele aí nos estádios, no Centro de Imprensa, o pessoal de rádio, da imprensa argentina, deve ter informações do paradeiro dele" e a gente que tinha que dar conta dos programas e das transmissões também tinha que encontrar Bilardo a qualquer custo.



Ele trabalhava para uma rádio argentina e todos os dias batíamos a porta dos Hermanos: "Por favor, senhor Bilardo". A resposta era a mesma. Hoje não veio, está em Berlim, está em Bonn, está em Frankfurt, talvez venha amanhã, mas nada de aparecer. Começamos a achar estranho o seu sumiço. Estava na cara que não queria falar com a gente. Já o tratávamos como fugitivo. Queríamos apenas uma explicação. Algo deu errado, está doente, precisa de alguma coisa, fizemos alguma coisa que o desagradou, o que houve?



Um dia eu e o Rogério Assis fizemos o primeiro jogo da rodada e ficamos com a tarde livre. Ele disse: "Chega de procurar Bilardo. O homem está invisível". Concordei: "Quer saber? Vamos almoçar fora do Centro de Imprensa. Não aguento mais esse comida daqui. Vi um restaurante há poucas quadras. Me pareceu agradável. Vamos comer uma comida tipicamente alemã e tomar aquele "balde" de cerveja que eles servem como "dose única". Que mal tem? Hoje não tem mais nada para fazer a não ser dormir mais tarde". Decidimos e fomos.



Estamos tentando entender o vasto cardápio para saber o que pedir e o Rogério levanta a cabeça e vê na mesa à frente sorvendo um belo copo de cerveja o nosso fugitivo. Carlos Bilardo também tinha resolvido almoçar longe dos colegas da imprensa e escolheu o mesmo restaurante. Bom, por certo ele sabia que algumas pessoas da Rádio Panamericana, de São Paulo, apelido da Jovem Pan, o estavam procurando, mas ele não conhecia a cara dos sujeitos.



Quando nos aproximamos de sua mesa deve ter pensado que eram dois "hinchas" querendo foto ou autógrafo. Nos recebeu com educação, mas quando soube quem éramos, fechou a cara. Quase jogou a cerveja em nós. Mas cumprimos a missão. Ao fim da rápida conversa pouco explicou, mas disse que antes de gravar para a Rádio precisava falar com "Banderley", com certeza o nosso Wanderley Nogueira, que tinha feito contato com ele. O número era o mesmo que já tínhamos e prometeu dessa vez atender.



A partir dai gravava normalmente, até participou de programas e só fomos saber o que ocorreu depois da Copa quando Wanderley nos relatou a história. Quando conversou com Bilardo uma pessoa foi indicada para tratar em seu nome. O Cachê seria pago a essa pessoa para transferir a Bilardo. Só que o sujeito sumiu com a grana e Bilardo achava que a Pan tinha dado calote.



Sinceramente não sei como resolveram a situação, mas a partir da conversa no Restaurante, Bilardo nos cumprimentava com gentileza quando a gente se esbarrava no Centro de Imprensa. Acho que percebeu que também fomos enganados. Até os companheiros da rádio argentina nos tratavam melhor. Provavelmente Bilardo relatou a eles o que tinha se passado. Copa do Mundo tem cada história. E eu vou contando em doses homeopáticas antes que algum amigo, ou um Bilardo da vida, me interdite. Tudo baseado em fatos reais.