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Bebeto, aquele que era moderno antes da modernidade

Morreu neste último domingo (22/08/21) Bebeto de Oliveira, ex-jogador de futebol de muita qualidade marcando época na Ponte Preta e especialmente na Ferroviária, quando o Interior de São Paulo tinha grandes e marcantes equipes, e foi um preparador físico bem à frente do seu tempo. Nessa função também teve muito destaque e foi admirado e copiado por muitos colegas.



Fez uma dupla extraordinária com Cilinho, com quem vai se encontrar no céu para rememorar velhos causos e truques do futebol raiz, que realizaram no São Paulo no meio da década de 80.



Digo que Bebeto era moderno antes dessa tal modernidade de hoje porque os seus treinos já eram diferentes, pontuais e detalhistas na época. Pelo menos eu vi assim. Ainda não havia Centro de Treinamento e o São Paulo fazia todo o seu trabalho no Estádio do Morumbi. Eu morava na Avenida Jaguaré e chegava cedo para ver a movimentação. Vi quando Cilinho chegou e quis assistir o primeiro treino da arquibancada juntamente com dirigentes e a própria imprensa. Era assim naquela época.



Parece que foi ali que ficou impressionado com um menino: "Fala para aquele "bugrinho" ali que amanhã ele treina com os profissionais". O tal "bugrinho" era Müller, que ainda há pouco tempo me confessou: "Quartarollo, eu achava que era meia. Daí o seu Cilinho disse que minha característica era de atacante. Foi ele que me colocou na frente. Nem eu sabia que podia ser atacante".



Lembro também que alguns dirigentes/conselheiros do tricolor ficaram horrorizados: "Esse Müller não vai virar nada, vive fugindo daqui. Só continua aqui por causa do irmão dele (um outro Müller que jogou no tricolor antes dele). O bom é o Renatinho". Não era, Renatinho até rodou por aí, mas bom mesmo foi Müller.



Mas num desses dias de manhã cheguei ao Morumbi para cobrir o treino pela Rádio Record e vi alguns grupos treinando em separado ao invés do famoso coletivo que era normal para aqueles tempos. Cilinho estava ali pertinho da trave do gol de entrada, do Morumbi, só observando. Eu quis saber o que estava acontecendo. Cadê o treino, seu Cilinho? Hoje é cafe com torrada?



Cilinho, que gostava de conversar, de ensinar e mostrar o que fazia, passou a descrever o treino: "O treino é para o jogador aprimorar o seu espaço no jogo. Para quê que vou querer que Oscar e Dario Pereira fiquem correndo que nem louco? Pita é um cara lento de habilidade e passe preciso. Não corre muito. Careca, Müller e Sidnei precisam ter arranque, velocidade. Os laterais precisam de pulmão para ida e volta. Então porque vamos dar um treino igual para todos? Vamos aprimorar o que eles necessitam para o jogo".



Aí olhei para o gramado e lá estavam Oscar e Dario Pereira postados dentro, ou nas imediações da grande área, tirando bolas de cabeça cruzadas de um lado e de outro do campo. Cilinho esparramava camisas de três cores no meio-campo e nas laterais e quando a bola vinha ele gritava a cor da camisa e os zagueiros tinham que colocar a bola em cima dela. Era a extraordinária saída rápida daquele time. Era incrível ver o que Oscar e Dario acertavam.



Do outro lado estava Pita com uma bola de borracha, tamanho de uma de tênis, fazendo embaixadas, dominando a bolinha de tudo quando era jeito, demonstrando o talento incomensurável que sempre teve. Ele não precisava dar pique de 100 ou 200 metros. Chegava no ataque pisando leve, quase como um bailarino e surpreendia o adversário com a chegada e com passes precisos.



Lá do outro lado do campo Müller, Careca, Sidney e também os reservas do ataque ao mesmo tempo que tabelavam, chutavam a gol, davam piques de 50 metros. E comandando tudo isso Bebeto de Oliveira, que foi a minha matéria daquele dia. Achei uma grande novidade e ele ficou satisfeito também com o resultado do treino. O São Paulo voou baixo com um time mesclado de jovens e experientes que ganhou o apelido de "Menudos", numa analogia ao antigo grupo de Ricky Martins, que fazia muito sucesso na década de 80.



Demorei para ver esse tipo de treinamento em outros clubes onde ainda imperava só o velho coletivo e algumas jogadas ensaiadas. Bebeto estava à frente. Era moderno já na época. Pensava cada detalhe para melhorar a performance do atleta física e tecnicamente. E apoiado também pelo fenomenal Cilinho, outro que enxergava longe demais e que sempre entendeu que a bola tem que fazer parte de qualquer treinamento. Jogador gosta de jogar bola, dizia o sábio Cilinho. Por isso toda vez que vejo um chamado jogador tático que entra em campo para correr mais do que jogar, eu lembro de Cilinho. Jogador gosta da bola. É, deveria ser sempre assim.