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A dor de Sorato


Os pensamentos voam. Difícil segurá-los. São indomáveis. Pará-los, estancá-los, às vezes, só com meditação.

Os meus, quando são para o bem, eu os libero para voar.

Muitos eu os transformo em livro.

Como Esconderijos do futebol, que publiquei em 2019, com charges de Fausto Bergoce, está na segunda edição.

Esconderijos traz uma coletânea de histórias que vivi, fui protagonista, ou apenas vivenciei na linha de frente do jornalismo esportivo, como repórter.

E neste sábado carrancudo, torcida brasileira, como diria Fiori Gigliotti, veio à minha mente uma história que aconteceu em 1992, quando eu cobria o Palmeiras para o Diário Popular, o saudoso Dipo, o Rei das Bancas, que foi assassinado pelo Grupo Globo, que o comprou para transformá-lo no Diário de S. Paulo que, claro, teve vida curta, pois que substituir o grande Dipo não era, e não foi, para qualquer um.

Bem, incompetência do Grupo Globo (Infoglobo, na verdade), à parte veio à minha memória uma entrevista que fiz com o ex-jogador Sorato, que havia sido contratado pelo Palmeiras, no início da parceria com a Parmalat, que pouco tempo depois faria com que o clube retomasse a sua trajetória de conquistas.

A parceria, que a editoria de esportes do Dipo chamava de Leiteria, foi buscar Sorato no Vasco, que havia sido campeão brasileiro de 89, depois de derrotar o São Paulo, no Morumbi, por 1 a 0.

Gol de Sorato.

Sorato estava no Palmeiras há uns três meses. E não conseguia jogar. Estava sempre machucado.

Uma tarde, antes de sair da redação dei uma olhada no noticiário internacional.

A Internet engatinhava e nós, repórteres da época, não tínhamos as facilidades de hoje.

O noticiário chegava pela France Press, AP – Associated Press...

Os portais de notícias internacionais eram raros.

Bati o olho e vi uma notícia sobre o interesse do Tenerife, da Espanha, em Sorato. Imprimi a notícia e fui para a Academia de Futebol do Palmeiras, ainda incipiente, precária mesmo.

Eram tempos em que os repórteres tinham facilidade para conversar com os jogadores.

Assim que desci do carro do Dipo, vi o Sorato saindo do vestiário em direção ao campo de treinamento do clube.

Eu o chamei e ele veio, solícito.

Perguntei como ele estava, se havia alguma possibilidade de ele finalmente estrear pelo Palmeiras.

Notava-se que ele ainda não estava enturmado com o grupo de jogadores do Palmeiras. Não tinha conseguido se ambientar. Veio do Vasco como um grande destaque, mas encontrou um Palmeiras em ebulição, em início de montagem de uma grande equipe que, no ano seguinte, iria levar o clube à realização de um velho sonho: ser novamente campeão paulista, o que não conseguia desde 1976.

Antes mesmo de ele responder se estava em condições de jogar, tirei do bolso a notícia da agência internacional que trazia o interesse do Tenerife.

Mostrei o papel a ele.

Sorato leu a notícia e teve uma reação inesperada.

Colocou a mão direita no joelho e gemeu de dor.

Eu, no momento, achei que ele está brincando.

Não estava.

Realmente, bastou ele ler a notícia sobre o interesse do clube espanhol em contratá-lo para sentir imediatamente a dor no joelho.

Sempre que me lembro da reação de sofrimento e de dor que ele teve eu não consigo segurar o riso.

O interesse do Tenerife não se confirmou e Aguinaldo Luiz Sorato fez uma razoável carreira no Palmeiras.

Ficou no clube até 1994 e fez parte do elenco que conquistou o Campeonato Paulista de 93 e o Brasileiro de 1994.

Disputou 48 jogos e marcou oito gols.

Não conseguiu ser no Palmeiras o atacante artilheiro que foi no Vasco.

Para mim ficou a lembrança de um jogador que fez cara de choro e de dor ao ler uma notícia sobre o interesse de um clube espanhol pelo seu futebol.


Wladimir Miranda cobriu duas copas do mundo (90 e 98). Trabalhou nos jornais Gazeta Esportiva, Diário Popular, Jornal da Tarde, Diário do Comércio e também na Agência Estado. Iniciou no jornalismo na Rádio Gazeta. Trabalhou também na TVS, atual SBT. Escreveu dois livros,de grande aceitação no mercado editorial: O artilheiro indomável, as incríveis histórias de Serginho Chulapa e Esconderijos do futebol.

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