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UM RAIO DE SOL

Eu me lembro muito bem.


Era 1990 e a redação de A Gazeta Esportiva começava mais um dia de trabalho. Os repórteres, cada um com sua pauta, se preparavam para ir aos clubes ou às entrevistas previamente marcadas. Os editores conversavam sobre as possíveis manchetes, os fotógrafos limpavam suas lentes e eu, ainda estagiário (embora já fizesse mais de um ano que integrava a equipe), aguardava as ordens que me seriam passadas pelo editor-chefe, Osvaldo dos Santos.

Notei que sentada à sua mesa estava uma menina, na verdade uma adolescente, que para minha surpresa seria a minha “tarefa” daquela e de muitas outras tardes a partir de então. Não demorou e o “Zé”, que era como eu o chamava, gritou:

_ Márcio, chega mais. Essa é a Fernanda Viel e ela vai fazer um estágio com a gente. Como você já está mais experiente, quero que você seja o responsável por ela durante uns dias: mostre tudo, apresente-a para todos, ensine onde ficam os departamentos e dê uma força nos primeiros textos que ela escrever. Acho que vocês vão se dar bem, pois têm quase a mesma idade.

Meu chefe errou. Não, não tínhamos quase a mesma idade: eu já contava 20 anos, enquanto ela ainda tinha 16. Isso mesmo: a mais jovem estagiária da GE ainda estava no Colegial, hoje chamado de Ensino Médio. Como alguém que nem na Faculdade de Jornalismo estava pôde iniciar um estágio em um dos mais importantes jornais esportivos do Brasil rapidamente se explicou: ela era filha de Mexicano, um antigo jogador do Palmeiras. Mas meu chefe também acertou: sim, nós nos demos muito bem, desde a primeira vez em que fomos apresentados e durante muitos anos também.

Embora muito bonita, o que mais chamava a atenção de todos na redação era a extrema simpatia, o sorriso constante e contagiante e a impressionante facilidade com que a caçula da redação aprendia tudo o que se referia a Jornalismo. Ouso dizer que em toda a história do jornal, hoje apenas uma página na internet, jamais houve alguém que aprendesse tão rápido e fosse galgando patamares com tamanha velocidade quanto Fernanda, desde sempre dona de um texto quase irretocável. Palmeirense fanática, suportava as gozações em um período difícil para o Verdão, mas não perdia a chance de devolvê-las sempre que seu time conseguia uma vitória importante.

Não demorou nada para que todo o encanto que os colegas de A Gazeta Esportiva sentiam por ela se expandisse para além dos muros do antigo prédio da Alameda Barão de Limeira. A cada clube que conhecia, e a cada atleta, técnico ou dirigente a quem fazia suas primeiras perguntas, Fernanda aumentava sua legião de fãs. Era praticamente impossível alguém não gostar de uma menina que, na hora do trabalho, mais se parecia com uma experiente profissional. De repente, ela se transformou em matéria de revista, em entrevistada da TV, em representante nº 1 do universo feminino em um ambiente naturalmente masculino. Enfim: era quase uma celebridade.

Porém, quando muito repentino, o sucesso costuma pregar suas peças. Tempos depois, já bastante conhecida do público e da mídia, Fernanda começou a cometer equívocos profissionais. Quase com a mesma velocidade com que subiu na profissão, ela começou a descer na carreira. As portas dos clubes e o coração de dirigentes, técnicos e jogadores, que antes e por um bom tempo lhes estiveram totalmente abertos, foram gradativamente se fechando. Chegou, é verdade, a criar uma personagem de sucesso, a “Mary Foot”, e por ser muito bem relacionada conseguiu, através deste seu alter ego, escrever em dois outros jornais – Lance! e Folha da Tarde – uma coluna de fofocas sobre o mundo do futebol e seus integrantes. Obviamente, estes não gostaram nem um pouco dessa história, o que piorou ainda mais sua imagem no meio em que estava inserida.

Na ânsia de obter informações exclusivas, passou do ponto em diversas ocasiões e protagonizou momentos incompatíveis com sua profissão. Mas sempre se manteve irredutível em sua opinião e jamais admitiu mudar sua postura, por mais que eu, seu melhor amigo no Jornalismo, ou que jornalistas muito mais experientes, com décadas de carreira, a alertassem de que aquele seria um caminho sem volta.

E foi. Aos poucos, Fernanda perdeu todo o espaço, toda a credibilidade e todo o status que tão rápida e merecidamente conquistara, e teve até que abandonar o Jornalismo e trabalhar em outras funções, como a de assessora parlamentar. Esta certeza de que poderia ter sido muito, mas muito mais do que foi na profissão, aliada a problemas de ordem pessoal que não vêm ao caso agora, acabou roubando de seu rosto aquele sorriso constante e contagiante de que falei acima. Talvez para se isolar, talvez para revidar, não sei, ela começou a romper laços com tudo e todos que a remetessem a seus tempos de jornalista, e nem mesmo este cronista, sem dúvida uma das mais próximas pessoas com quem havia trabalhado, ela continuou a atender. Tentei contato várias vezes, mas nunca recebi retorno algum.

Fernanda se isolou do mundo, se permitiu dominar pela tristeza e, em 2017, pouco após a morte de seu pai, foi diagnosticada com depressão. Tratamentos, médicos e mais médicos, remédios sem fim... Tudo amenizava, mas nada resolvia de fato seu problema. Veio a pandemia e o que estava ruim piorou ainda mais. E como seu estado psicológico já não estivesse terrivelmente comprometido, em fevereiro último ela perdeu sua mãe, com quem morava. Foi a gota d’água que fez transbordar sua taça de mágoas.

Segundo me informou alguém que lhe era muito próximo, desde então ela se entregou de vez. Tudo o que estava ao alcance de seus familiares para que ela pudesse reagir lhe foi oferecido e, mesmo podendo contar com o apoio de muitos, pouco pôde lhe ser feito: na última quarta-feira, 27 de julho, por decisão própria, Fernanda Viel se despediu deste mundo.

Quando soube da notícia, horas depois, foi como se eu tivesse levado um tiro no peito. Mesmo sem a ver ou mesmo falar com ela há mais de seis anos, senti como se tivesse perdido uma irmã mais nova. Mas depois, me conformei, pois seu ato se deveu a um estado psicológico que a torna inimputável da ação que cometeu.

E também porque, em minha lembrança e em meu coração, Fernanda continuará a ser, para sempre, aquele raio de Sol que invadiu a redação de A Gazeta Esportiva em um certo dia de 1990.

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Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br