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UM GOL DE PALHINHA E TRÊS TAPAS NA BUNDA

Morumbi, 5 de outubro de 1977.

Corinthians e Ponte Preta começam a decidir o título do Campeonato Paulista. Para a Macaca, algo inédito em sua história; para o Timão, a chance de, enfim, colocar um término a um jejum que durava, então, quase 23 anos. Ambas as equipes chegaram à grande decisão rigorosamente empatadas, com 64 pontos na soma total, o que gerava uma emoção ainda maior nas duas ou, possivelmente, nas três partidas que apontariam o grande campeão.

Enquanto isso, no bairro do Pari, Zona Norte da Capital paulista, uma garoto loirinho de apenas 9 anos não estava gostando nem um pouco dessa história toda. Afinal o seu Palmeiras, após liderar seu grupo tanto no Primeiro quanto no Segundo Turnos, perdeu força na reta final e acabou fora da etapa decisiva. Restava ao menino, então, apenas “secar” o arqui-inimigo do seu clube e torcer para que a “fila” corintiana, então já gigantesca, aumentasse ainda mais.

Sentado no tapete da sala e em frente ao TV em preto e branco, o carinha nem teve muito tempo para torcer por um gol da Ponte Preta: logo aos 14 minutos, Adãozinho recebe a bola na intermediária defensiva, vê Palhinha correndo pelo meio em direção à área de Carlos, lança a bola e, veloz, o meia-atacante ganha de Jair Picerni, Oscar e Polozzi e chuta forte. O goleiro ponte-pretano faz uma excelente defesa, mas no rebote a bola bate fortemente no rosto do corintiano e vai morrer no fundo das redes.

O guri não acredita na sorte do Corinthians. Completamente fora de si, pega uma almofada cor de laranja e a joga no TV, derrubando a antena que ficava em cima do aparelho (ação que, evidentemente, faz a imagem dar lugar ao famoso e hoje inexistente chuvisco de tela). Não contente, ainda solta um pra lá de sonoro “Vai ter sorte na puta que o pariu, time filho da puta!”.

O resultado de tão expansiva e nada educada reação foram dois castigos impostos ao menino por sua mamãe: três tapas na bunda (segundo ela, um por ter atirado a almofada e um por cada um dos palavrões que falou) e a proibição de assistir ao restante daquele primeiro jogo, o segundo e, se houvesse, também à terceira partida decisiva. O garoto ainda tentou convencer a mãe de que deveria ficar, pois Dicá, Odirley, Marco Aurélio ou qualquer outro jogador da “Macaca” poderiam reverter a situação. Mas não teve jeito – foi imediatamente conduzido ao seu quarto e com a ordem de dormir logo, porque no outro dia tinha escola.

Na última segunda-feira, quase 46 anos depois daquela data, o guri acordou com a notícia de que Palhinha regressou ao Plano Espiritual aos 73 anos, e sentiu uma tristeza no peito. Menos pelo gol de nariz que o jogador marcou, e mais por nunca ter tido a chance de lhe contar a história que agora você acabou de ler.

Ganha um doce quem adivinhar que é este menino.

­­­­­­­­­Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br.



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