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UM FRACASSO EM TRÊS CENAS


Cena 1: o Palmeiras perde por 3 a 2 para o Santa Cruz/PE, em jogo válido pelo Campeonato Brasileiro de 2006. Na chegada a São Paulo/SP, o então vice-presidente de futebol palmeirense, Salvador Hugo Palaia, informa à Imprensa, no Aeroporto de Cumbica, que demitira o técnico Tite ainda nos vestiários do Estádio do Arruda, e explica sua decisão com estas palavras: “Sei que estamos numa situação delicada na tabela, mas ele é muito defensivo e esta nunca foi a forma de o Palmeiras jogar. Se eu empatar todas termino o Brasileirão invicto, mas também rebaixado”.

Cena 2: em 2012, o técnico Mano Menezes participa de um conhecido programa de debates na TV fechada e, após ser acusado por um jornalista de ter certa predileção por sistemas de jogo mais fechados, defende-se: “Não sou retranqueiro, apenas adapto minha forma de jogar às características da equipe que dirijo. Por exemplo: se estou no Grêmio/RS ou no Corinthians/SP, posso privilegiar a defesa, pois historicamente estas equipes conseguiram vários títulos atuando desta forma; mas se sou o treinador do Cruzeiro/MG ou então do Palmeiras, não poderei jogar desta forma porque suas torcidas jamais aceitarão um esquema mais fechado”.

Cena 3: em setembro de 2021, o presidente do Santos, Andrés Rueda, demite o técnico Fernando Diniz e escolhe para substituí-lo o maior retranqueiro do futebol brasileiro nos últimos tempos, Fábio Carille. Sem dar a menor bola para o DNA ofensivo do seu time, que jamais, nem mesmo nos piores momentos de sua história, jogou na defesa, ele admite que o principal motivo que o fez optar pelo ex-corintiano não foi técnico, mas financeiro: “Não pensamos em trazer um treinador estrangeiro, até pelo momento vivido. Precisávamos de alguém que conhecesse o Campeonato Brasileiro. Então foi fácil, Carille foi a nossa primeira opção e a conversa avançou rapidamente. Ele abriu mão dos vencimentos que tinha lá fora. Era outro patamar, não dava nem para conversar. Ele se adequou e estamos muito contentes. Acreditamos em um grande trabalho no Santos".

Pois bem: Fábio Carille encontrou o Peixe na 13ª colocação do Campeonato Brasileiro e distante quatro pontos da temida ZR. Hoje, pouco mais de um mês e meio depois, o time da Vila Belmiro é o 17º colocado – ou seja: está bem mais perto do rebaixamento do que antes de sua chegada.

Sob seu comando, a equipe disputou oito partidas válidas pelo Brasileirão e ganhou... apenas uma – do Grêmio/RS, com um gol sem querer do zagueiro Vágner Palha já nos acréscimos. Os outros resultados foram quatro empates (com Bahia/BA, Ceará/CE, São Paulo e Sport do Recife/PE) e três derrotas (para Juventude/RS, Atlético/MG e América/MG – esta no último sábado e diante de sua torcida). Nestes jogos, o ataque da equipe conseguiu, com muito esforço, marcar... Três gols! Já a defesa, que deveria ser seu ponto forte, levou... Nove (!). E se lembrarmos que já com Carille o Santos também foi eliminado na Copa do Brasil – pelo Atlético/PR, e em pleno Urbano Caldeira -, os números ficam ainda piores: 9 jogos, uma vitória, 4 empates e 4 derrotas, com 3 gols marcados e 10 sofridos. Ou 25.9% de rendimento.

Para escapar sem maiores sustos da Série B do ano que vem, o Santos terá que chegar aos 46 pontos. Isso significa que precisará somar (o quanto antes) pelo menos 17 dos 33 pontos que ainda tem a disputar – ou, em termos percentuais, atingir 51.1% de aproveitamento, bem mais do que os 35.8% que obteve até aqui. Em outras palavras: a equipe precisará ganhar no mínimo quatro e perder no máximo duas das últimas 11 partidas que jogará.

Se Andrés Rueda tivesse assistido às duas primeiras cenas relatadas nesta coluna, talvez eu não tivesse escrito a terceira.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 15 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br