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UM DIA EU APRENDO


Não sei se o amigo leitor tem ciência, mas além de jornalista e escritor sou também celebrante e apresentador de eventos sociais e corporativos. Pois bem: ao final de um casamento que realizei já há algum tempo, um convidado se dirigiu a mim e disse as seguintes palavras: "Trevisan, você é um grande Mestre de Cerimônias. Por isso, vou lhe dar um conselho: fique só nisso. Pare de falar e de escrever sobre futebol, porque de bola você não entende nada".


Lembrei-me daquele cidadão após a goelada por 4 a 0 que o Palmeiras impôs ao São Paulo, numa Arena Palestra Itália linda de se ver, toda em verde e branco, resultado este que garantiu ao alviverde a conquista do seu 24º título do Campeonato Paulista. É que, no contato diário que mantenho com a galera palmeirense em um dos meu sites – www.senhorpalmeiras.cm.br – as últimas palavras que escrevi após o primeiro jogo, na quarta-feira passada, quando o Tricolor “jantou” o Verdão no Morumbi (por sinal, igualmente lindo com as três cores do clube), foram as seguintes: " O mais provável é que no domingo aconteça uma festa são-paulina diante de milhares de palmeirenses". Ou seja: errei feio em minha previsão e, pelo menos dessa vez, tenho de dar razão ao convidado citado no primeiro parágrafo desta coluna.


De fato, ainda que mantivesse um restinho de esperança bem escondido em seus corações, a verdade é que a galera “palestrina” temia, sim, a perda do título – talvez não por ele em si, já que dentre tudo o que já disputou e ainda irá disputar no restante desta temporada, o torneio regional era, indiscutivelmente, o menos importante para o Palmeiras. Mas é claro que nunca é agradável à torcida nenhuma ver um rival levantar a taça dentro de sua casa. Eu, realmente, esperava uma partida equilibrada, nervosa, assim como é quase toda a decisão, e não um passeio alviverde diante de um adversário que só conseguiu chutar uma bola com perigo ao gol em todo o jogo, e ainda por cima para fora. Se quisesse, Abel Ferreira poderia ter mandado a campo 11 jogadores de linha, já que Weverton foi uma simples figura decorativa em campo.


Isso aconteceu, claro, devido à qualidade superior que o Palmeiras tem em relação ao São Paulo, mas não apenas por isso. Como bem diz o português que comanda o Verdão (e que neste domingo conquistou seu 5º título em menos de um ano e meio no clube), seus jogadores mantiveram a cabeça fria, mas esquentaram ainda mais seus corações. Cientes de que não jogaram quase nada no Cícero Pompeu de Toledo e que por isso de lá saíram com 3 a 1 nas costas, entraram em campo no Palestra com sangue nos olhos e conscientes de que apenas uma forte pressão, sobretudo no primeiro tempo, poderia lhes garantir o que era um tanto quanto improvável: vencer por três gols de diferença e ficar com a taça.


E foi assim que o Verdão ganhou: jogou com alma de campeão, com garra de vencedor e com a experiência de uma equipe acostumada não somente às finais, mas também a vencê-las (de 2015, ano em que passou a contar com sua nova arena e o com o patrocínio da Crefisa, o Palmeiras foi campeão ou vice em 18 das 35 competições de que participou – ou seja: em 51.4% delas).


O São Paulo foi esmagado durante todo o jogo, e morreu de asfixia com as bolas que, impiedosamente, entraram em suas redes. Claro que Rogério Ceni também deu sua dose de contribuição. Ao contrário que fizera na primeira decisão, quando manteve seu time no ataque durante todo o jogo e muito por isso consegui o expressivo resultado, o ex-goleiro e agora treinador são-paulino facilitou a vida dos palmeirenses ao não mandar a campo, mesmo após levar os dois primeiros gols, nenhum jogador mais "agudo", como Marquinhos ou Rigoni, por exemplo. Com um dos dois, ou mesmo os dois, já que sua vaca caminhava, célere, para o brejo, poderia ter explorado o ponto mais fraco do adversário: a marcação pelos lados do campo, onde Marcos Rocha e, sobretudo, o limitadíssimo Piquerez protagonizam sustos constantes à massa alviverde. Se assim tivesse agido, o técnico são-paulino talvez não tivesse conseguido evitar a derrota, mas pelo menos teria tido mais chances de impedir a goleada e o vexame histórico de perder um título que estava quase todo em mãos tricolores.


Ah, sim: em relação àquele convidado que disse que de bola eu nada entendia, talvez ele esteja certo. Afinal, são apenas quase 34 anos escrevendo e falando profissionalmente sobre futebol. Um dia eu aprendo.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br