• Futebol em Rede

Tostão e a matéria que parou no barulhinho

Tostão e a matéria que parou no barulhinho. O Brasil estava nas Eliminatórias para a Copa do México, em 1986, e eu ainda estava na Rádio Record. Edison Scatamachia estava montando uma longa programação de fim de semana tendo como tema a Seleção Brasileira.



O considerado Scata, além de detalhista era muito competente e sacava temas legais. Fez uma reunião e avisou aos repórteres que pretendia ouvir um jogador campeão do Mundo de cada posição para indicar para o técnico quem seria o seu "substituto" ideal para a Copa. Tipo, goleiro iria sugerir um goleiro e assim por diante.



Muitos nomes surgiram de campeões das Copas de 58, 62 e 70 e cada repórter assumia a missão de ouvir os personagens. Eu atrevidamente disse que iria falar com Tostão. Hoje mais fácil, mas na época diziam que ele tinha sumido do mapa, que estava frustrado por ter abandonado a carreira tão cedo, que pensava apenas em ser médico e que não gostava de falar de futebol.



Diziam que tinha dado fim a todos os seus troféus e medalhas de campeão para esquecer de vez o passado de atleta. Portanto, quando eu disse que ia entrevista-lo acharam que era tempo perdido: "Ele não fala com ninguém, está totalmente recluso. Tenta ouvir outro da posição" e eu falava: "Não, vamos ver no que dá".



Não sei bem porque, mas eu tinha um telefone de uma loja, ou de um Posto de Gasolina, ou coisa que o valha, do Tostão e decidi arriscar. Lembrem-se não havia celular, nem Internet e o telefone era ainda aquele de disco para se ter ideia de como era diferente de hoje. Saí da reunião e já fui atrás do meu grande entrevistado. Ligo para o dito número e atende uma voz "mineiramente cavernosa" e eu gelei. Penso, ih não é ele. Me identifico e pergunto do Tostão: "Ah, não tá qui, não. Foi armoçar e não vortou té gora. Mai, pera aí, que passo o número da casa dele pro sinhô".



Quase cai da cadeira. "Pois, não. Agradeço a gentileza". Já em seguida liguei para a casa do Tostão e quando ele atendeu não quis demonstrar intimidade com o apelido que o Mundo conhecia: "Por favor, boa tarde, é da casa do Dr. Eduardo Gonçalves de Andrade" e do outro lado da linha: "Boa tarde, sou eu mesmo"



Bem, expliquei o que eu pretendia, perguntei se podia me atender e do outro lado da linha ele fala entre risos: "Pode me chamar pelo apelido, todo mundo me chama de Tostão desde o América". Meu coração palpitava. Tostão não falava há um tempão com ninguém, estava mesmo recluso, até hoje ele não gosta de aparecer, mas daí todo mundo começou a dizer que ele não queria mais dar entrevista, que tinha ódio do futebol, o que não era verdade.



Imediatamente peço para a central jampear o telefone (hoje seria conectar) para fazer a entrevista. Na Central Técnica estava o falecido Miguel Bartok Filho, gente boa demais, mas um pouco atrapalhado. Ele lembrava fisionomicamente e até nos gestos o Shemp, dos 3 patetas e nesse dia fez jus a tudo isso. "Posso contar e mandar, Bartok?". Do outro lado do aquário: "Ok, pode"e começo a matéria da minha vida. Já pensava até na manchete da chamada.



Foi um entrevista de mais de 20 minutos com um Tostão solto falando das vezes que ia ver jogos com seu filho no Mineirão, dizendo que jamais teve ódio do futebol, que jamais se livrou dos seus troféus, que se afastou para fazer Medicina, que fez Residência em hospitais, falou da Copa de 70, dos companheiros, de Pelé, de Gerson, de Rivellino, de Zagallo, contou causos, sorriu e indicou como o seu 9 para a Copa do México o então sãopaulino Careca. Acertou em cheio, Careca foi um dos destaques da Copa de 86 e depois foi fazer dupla com Maradona no Nápoli.



Encerrei a entrevista e saí do estúdio quase sem tocar o chão. Que matéria, acho que fui bem. Exclusiva e esclarecedora, muito bom. Quando entro na Central Técnica, o Bartok fala; "Quando começou a entrevista tava bom, mas depois entrou um barulhinho e eu parei de gravar. Liga para ele de novo". Quase cometi um "assassinato". "Bartok, porque você não continuou gravando e a gente fazia uma edição. Ou então batesse no vidro que eu também parava e a gente refazia a ligação. Você acha que tenho coragem de ligar para um cara que raramente dá entrevista e digo que não gravou nada? Ele vai achar que foi sacanagem". O calmo Scatamachia também se irritou um pouquinho. Só queria mata-lo devagar.