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Rogério Ceni aprendeu a jogar o jogo

Técnico de futebol, com raras exceções, quer trabalhar em time grande e quer o cargo de quem está lá. É lídimo para qualquer trabalhador querer emprego, mas tudo passa por uma certa ética ou transparência. Os técnicos, principalmente no Brasil, vivem reclamando de falta de tempo, que os clubes o demitem quase que sumariamente e que não dão retaguarda para ninguém. São na verdade permanentes interinos.



Mas eles também têm muita culpa. Quando estão fora do mercado parece que ficam como urubus esperando o outro cair e não tem nenhuma sutileza. Raros são os casos de técnicos que não aceitam conversar com algum clube se esse ainda tiver um treinador. Acho até normal ser procurado para ocupar uma posição que tenha alguém no momento. É a lei do mercado. Acho que aí a ética tem que ser mais do empregador do que de quem recebe a proposta, mas sei de casos de técnicos que foram procurados e não aceitaram conversar se houvesse um técnico de plantão. Outros então chegaram a avisar o possível futuro demitido que a diretoria estava pensando em troca-lo. Já vi isso, mas é raro, ou cada vez mais raro.



Essa semana escrevi nas minhas Redes Sociais que a imprensa não deve ficar defendendo emprego de técnico por mais que defenda um trabalho bem feito. Elogiar algo que está dando certo, tudo bem, mas ficar com aquela cantilena que não pode trocar é bobagem. Para os técnicos essa ciranda é altamente rentável. Fernando Diniz deixou o São Paulo, foi para o Santos, caiu e dias depois já estava no Vasco da Gama. Tem a receber do tricolor, do Santos e terá a receber da Cruz de Malta. Uma hora cai na conta.



Carille voltou das Arabias com tudo certo para dirigir o Santos. Nem teve tempo para o chamado período sabático e já estava empregado. Agora Vagner Mancini rasgou um contrato com o América Mineiro e voltou para o Grêmio, de onde um dia foi escorraçado na época de treinador. Como ele vai reclamar quando é demitido como foi do Corinthians, por exemplo? Antes tinha feito a mesma coisa com o Atlético Goianiense para treinar o Corinthians. Justo ele que tenta representar uma entidade ligada aos técnicos e que há algum tempo propunha que ninguém devia assumir o Atlético Mineiro porque Oswaldo Oliveira teria sido demitido injustamente. Mas é claro que isso não durou muito, logo alguém também assumiu o Galo. É a lei da oferta e da procura dos treinadores.



Agora Crespo caiu no São Paulo. Não entro no mérito da demissão em si, o trabalho dele era ruim mesmo, mas caiu de manhã e a tarde Rogério Ceni já estava dando treino no CT. Deu impressão que ficou na porta esperando Crespo cair. A diretoria e o próprio Rogério fizeram questão de contar que o acerto foi muito rápido e no mesmo dia. Duvido, todos sabiam que Ceni era o primeiro nome da lista se Crespo caísse. Era só aguardar.



Está errado Rogério Ceni? Depende do ponto de vista. Ele já foi vítima da mesma situação na primeira passagem pelo São Paulo e no Flamengo. Renato Gaúcho fincou sua barraca na frente da Gávea e ficou esperando Rogério cair. Sabia que ele seria o técnico. Não aceitou nem conversar com o Santos e fingiu levar a sério um convite do Corinthians, mas ele sempre quis o Flamengo, como agora quer a Seleção Brasileira que tem Tite como técnico. Acho que ambos não dividem mais a mesma cuia de chimarrão. A erva virou fel. Eles que são gaúchos que se entendam. Não é problema meu.



Na verdade Rogério Ceni só aprendeu a jogar o jogo. Já abandonou um time, no caso o bom Fortaleza num bom momento, sonhando com os novos e gloriosos ares no Flamengo. Em parte acertou porque jamais seria campeão brasileiro com o Fortaleza, foi um título que já colocou no seu currículo na sua curta carreira como treinador. Mas a sua demissão foi penosa. Nos últimos tempos de Flamengo quando ganhava era obrigação porque o time era muito forte e quando empatava ou perdia pediam a sua cabeça e botavam a de Renato na mesa. Coisas do nosso futebol.



Rogério conhece o São Paulo melhor do que qualquer um. Desde os dirigentes, aos jogadores, aos cantos do CT, do Morumbi, do Refis, até cada palmo de grama do Morumbi. Agora mais calejado e mais esperto pode dar certo. Eu vi Rogério começar como goleiro extraordinário que foi e estou vendo o seu início como treinador. Isso quer dizer que estou ficando velho mesmo, mas que também conheço muito do homem e profissional Rogério Ceni. Ele gosta de melhorar todo o dia. Não fica sentado no que já foi feito. Torço por ele e posso dizer que é um amigo que fiz no futebol. Uma coisa eu sei. Ele é estudioso e perceptivo. Vai errar e acertar, mas pela sua cabeça. Esse aprende rápido. É do jogo.