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QUEM LIGA PARA A LIGA?


Será que a LIBRA vai dar liga?

Nas últimas semanas, a criação de uma liga com os principais clubes do País foi o assunto mais comentado no futebol brasileiro. Uma reunião em um hotel de luxo da Capital paulista reuniu representantes de oito equipes – Bragantino, Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo, Flamengo/RJ, Cruzeiro/MG e Ponte Preta. Pouco depois, juntou-se a estes o Vasco da Gama/RJ.

O objetivo é, através da Liga Brasileira de Clubes (batizada de LIBRA), tirar da CBF o comando do futebol nacional, tanto no aspecto esportivo quanto no administrativo e financeiro, funções que serão desempenhadas pelo novo órgão. O problema é que nem bem nasceu e a LIBRA já tem enormes problemas. Por não concordarem com a divisão de recursos advindos das transmissões para o Brasil e para o exterior, um valor previsto entre R$ 1 bilhão e R$ 3 bilhões só de aporte inicial, equipes como Atlético/MG, Fluminense/RJ, Goiás/GO, Fortaleza e Ceará/CE já se manifestaram contra, e outras – casos de Bahia/BA, Sport do Recife/PE, Grêmio/RS e Internacional/RS – ainda não se posicionaram. Só que a ideia de criação de uma liga brasileira não é nova. Na verdade, é bem antiga, até.

A Confederação Brasileira de Futebol encerrou o ano de 2021 com uma receita que superou a casa de R$ 1 bilhão. Ou seja: se existe uma entidade esportiva que se possa considerar bilionária, esta é a que comanda a bola nacional. Mas nem sempre foi assim: em 1987, por exemplo, com a inflação ultrapassando os 70% ao ano, o órgão não tinha dinheiro sequer para organizar o Campeonato Brasileiro. Para piorar, torneios com partidas desinteressantes despertavam pouco o interesse dos torcedores, e o que se via na grande parte dos jogos eram arquibancadas às moscas, deixando alguns clubes à beira da falência.

Tal situação foi o estopim para que surgisse o Clube dos 13, que tinha como objetivo promover a união dos grandes clubes brasileiros e, desta forma, tomar para si não apenas a organização do Brasileirão mas também as rédeas das negociações de patrocínio com as emissoras de TV. Para tanto, foram convidadas as 13 equipes de maior torcida no País: Flamengo/RJ, Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Vasco da Gama/RJ, Grêmio/RS, Cruzeiro/MG, Santos, Internacional/RS, Atlético/MG, Botafogo/RJ, Fluminense/RJ e Bahia/BA.

Com mais rapidez do que se poderia imaginar, o Clube dos 13 conseguiu vender seus jogos para a Rede Globo, obter patrocínio da Coca-Cola para seu torneio e ganhar passagens aéreas e hospedagens da Varig. Tudo parecia fadado ao enorme sucesso, apesar do aumento de clubes participantes para 16 (foram também convidados o Coritiba/PR, o Goiás/GO e o Santa Cruz/PE), a fim de facilitar definição de regulamento e confecção de tabela. Estava criada, assim, a Copa União. Anos depois, o número de participantes foi aumentando, juntando-se ao grupo Atlético/PR, Guarani, Portuguesa de Desportos e Vitória/BA. E o Clube dos 13, então, passou a ser na prática o Clube dos 20, mesmo sem jamais ter adotado oficialmente tal denominação.

Mas aí a inveja entrou em campo: percebendo-se alijada das decisões esportivas e financeiras do futebol brasileiro, a CBF interveio e criou uma espécie de Série B, a qual chamou de “Módulo Amarelo” pois havia, por conta própria, batizado o torneio organizado pelo Clube dos 13 de “Módulo Verde”. E mais: exigiu que ao final dos dois módulos o campeão e o vice de cada um deles disputasse o título em um quadrangular, o que foi rejeitado pelos times que integravam o Clube dos 13. Tal situação, aliás, gerou um problema que se arrastou por anos entre Flamengo/RJ e Sport do Recife/PE, já que ambos, por terem vencido seus respectivos módulos, se consideravam campeões brasileiros de 1987. Hoje, por decisão do STF, apenas a equipe pernambucana desfruta de tal condição.

O Clube dos 13 tinha tudo para ser eterno, mas acabou por se tornar efêmero. Já no ano seguinte, com as finanças um pouco mais estabilizadas, a CBF retomou as rédeas do futebol nacional e o órgão que contava com os maiores clubes do País foi, aos poucos, perdendo força, espaço e relevância.

Mas a verdade é que a rivalidade entre os times jamais foi o principal motivo para o fracasso de uma ideia que, orginalmente, era muito boa e que mais contribuiu para o ostracismo e o fim, na prática, da entidade. Era muito comum, por exemplo, representantes de uma equipe boicotarem ideias ou ações de outra apenas por esta ser a sua principal rival. A última pá de cal foi dada em 2011, quando um racha na negociação dos direitos de transmissão para a TV dos Brasileirões de 2012 a 2014 provocou uma debandada geral. Hoje, o Clube dos 13 existe apenas para fins judiciais e pagamento de dívidas a fornecedores.

E agora? Será que a LIBRA vai dar liga?

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br