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POR QUE UM SONHO NÃO TEM PREÇO


Poucos sabem, mas o famoso programa de TV “Domingão do Faustão” quase não existiu.


Produzido e exibido pela Rede Globo entre 26 de março de 1989 e 13 de junho de 2021 (portanto, por mais de 32 anos ininterruptos, uma marca pra lá de elogiável), inicialmente ele teria outro comandante – Augusto Liberato – e outro nome: “Domingão do Gugu”.


O apresentador que havia anos estava no SBT já tinha, até mesmo, assinado contrato com a emissora carioca, mas foi demovido por Sílvio Santos de sua decisão ao lhe ser prometido que, no futuro, seria ele o substituto do nome mais famoso da história da TV brasileira nas tardes dominicais. Ao rescindir, com a ajuda do patrão, seu vínculo com a Globo, Gugu explicou por que decidira trocar São Paulo/SP pelo Rio de Janeiro/RJ: “Porque um sonho não tem preço”, disse.


Lembrei-me desta história na última semana, quando o meia Gustavo Scarpa, do Palmeiras, anunciou a assinatura de um pré-contrato com o Nottingham Forest, pequeno clube inglês que até este ano disputava a Segunda Divisão do campeonato local e que, a partir deste segundo semestre, quando começará a temporada 2022/2023, voltará a fazer parte da “Premier League”. Se compararmos seu time atual à sua futura equipe, parece ser absurda a decisão do atleta, já que no Verdão ele certamente continuaria a ser campeão ou, pelo menos, a lutar por títulos, enquanto em seu próximo desafio o máximo a que poderá almejar será permanecer na elite da bola local – ou em português mais claro: lutará apenas para não ser rebaixado.


Mas é aí que está o ponto: Scarpa tem um projeto não apenas de carreira, mas de vida. Diferentemente da esmagadora maioria de seus companheiros de profissão brasileiros, tem cultura acima da média, é ávido leitor de obras literárias cujo público-alvo são aqueles que estudaram muito mais do que ele, já fala razoavelmente bem inglês e quer viver a experiência de uma vida na Europa enquanto ainda se sente jovem para tanto.


Segundo apurou este jornalista, a proposta de renovação contratual apresentada pelo Palmeiras colocaria o atleta praticamente no mesmo patamar de alguns dos principais jogadores da equipe, como Weverton, Gustavo Gómez e Raphael Veiga, e não muito abaixo de Dudu, maior folha salarial do atual elenco. Mas para Scarpa, dinheiro não é tudo, e em sua opinião os ganhos que terá nos três anos e meio em que defenderá o Nottingham Forest excederão em muito salários e premiações, pois serão complementados com uma experiência de vida e um ganho sociocultural impossíveis de serem obtidos se ele permanecesse na Academia de Futebol.


Gugu até trocou o SBT, mas pela Record, e faleceu em um acidente doméstico, em 2019, sem realizar seu sonho. Já Gustavo Scarpa viverá a partir de 2023 aquilo que sempre sonhou viver, seja lá o que a ele estiver reservado na Europa.


Tomara que seu sonho realmente não tenha preço.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br