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Pelé Eterno: Um dia na casa do Rei

Essa eu devo para o Flávio Prado/TV Gazeta. Um dia o Flávio me convida para ir a casa do Pelé. Eu estava fazendo uma série de reportagens na Jovem Pan sobre a falta de respeito ao Hino Nacional, que era e é executado até hoje antes dos jogos. A torcida não dava bola, os jogadores eram apenas protocolares, os policiais não estavam nem aí e ninguém nem olhava para a bandeira, que é o que manda a lei quando se toca o Hino. Acho que não mudou muito.



Aquilo me incomodava. A gente estava banalizando um símbolo nacional e inclusive muitos que elogiavam países que faziam do seu Hino um momento de amor e louvor ao seu povo, também desrespeitavam. Mas aqui era coisa piegas de nacionalista sul-americano. A bem da verdade eu sempre pensei que é exagero tocar o hino em todos os jogos. Devia ser na abertura e no encerramento das competições. Mas já que estava determinado, que se respeitasse pelo menos.



Não adianta tocar o Hino e esperar que todos cantem ou saibam respeita-lo. Isso é conscientização que vem desde a escola. Num país em que o ensino foi jogado às trevas e é difícil somar 1+1 quanto mais decorar o Hino. Na minha época de escola era obrigado a cantar o Hino uma vez por semana em pé, com respeito, e em várias aulas era obrigado a fazer uma dissertação para entende-lo já que algumas palavras não se usam mais no nosso dia a dia, mas estão encrustadas no nosso retumbante Hino.



Seria ótimo ter a palavra de Pelé sobre isso e poderia fazer outras perguntas também. Topei o convite e fui para lá com motorista e um técnico da então TV Jovem Pan, o Rádio com Imagem do seu Tuta. E foi ele quem mandou fazer essa série de reportagens sobre o desrespeito ao Hino Nacional. Lembro que a torcida do Palmeiras fez uma paródia do hino e o então presidente Paulo Nobre tentou dizer que era errado, mas foi criticado. Até hoje fazem a mesma coisa e tem muita gente que aplaude.



Flávio imaginou um programa reunindo o maior ataque do Mundo: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Esse ataque com todos juntos jogou pouco mais de 90 jogos. Muitas vezes faltava um ou outro por contusão, convocação da Seleção e outras coisas mais. Mas foi o ataque que se imortalizou e traduz o que é o futebol bem jogado.



Pelé aceitou a sugestão e ofereceu a casa dele, no Guarujá, para fazer a gravação do programa. Seria mais fácil para todos e ele também queria rever os velhos amigos. Lembro que Pelé queria dar um cachê para os companheiros menos afortunados e o Flávio disse que a Gazeta não teria condições. Aí o Rei inventou mais uma jogada de mestre: "Flávio, faz o seguinte, vou depositar 10 mil reais na sua conta, e você dá 2 mil para cada um num envelope. Eu recebo também para não se sentirem humilhados" e assim foi feito.



Chegamos no meio da manhã e só saímos no fim da tarde. Pelé serviu um almoço para todos. Contaram histórias e mais histórias, foi um programa épico. Em dado momento, o Flávio Prado quis trazer para aquele momento o grande ataque do Santos de 60: "Quem seria o Dorval hoje?". Alguém entre eles disse, ah, Cristiano Ronaldo. Nossa, Cristiano Ronaldo. Era bom mesmo esse Dorval, hein?



E o Mengávlo de hoje? Seria um armador de muita categoria, um Falcão, um Zidane. Caramba, tudo isso. Esse Mengálvio era bom mesmo, hein? E o Coutinho? Aí, o Pelé diz: "Esse eu sei, é o Romário". Dizem mesmo que era muito parecido. Pelé falou com conhecimento de causa. E você Pelé? Quem seria o 10 desse ataque hoje? Pensativo o Rei responde: "Eu acho que o Zico jogou demais. Lembra o meu jeito de ir em direção ao gol sem medo. Gosto também do Kaká, que também não para, quer a bola o tempo todo e procura o gol insistentemente". O Kaká naquele momento voava, no Milan.



Sobrou o Pepe. Quem seria esse Pepe hoje? O próprio se levantou e disse: "Vou ficar com Eder". Nada mal. Atualizando décadas depois o maior ataque do Mundo seria: Cristiano Ronaldo, Zidane ou Falcão, Romário, Zico e Eder. Acho que seria um grande sucesso também. Só faltou Pelé nesse time.



Pelé fez questão de mostrar sua casa, de mostrar o cantinho onde fazia suas orações, e como um ser humano normal reclamou que estava muito sozinho. Acontece com todos mesmo. Os filhos seguem sua vida e a casa fica grande demais só para os pais. Aí sobram espaço e saudade. O Deus do futebol também tinha necessidades humanas de convivência e emoção como todos nós. Era gente e naquele dia foi um igual a nós. Quando chegamos havia uma certa aura, uma distância, afinal era o Pelé que estava ali. Mas as horas foram passando e de repente era só mais um entre amigos.



Pelé tinha muito carisma e o condão de aglutinar as pessoas em torno de si e deixa-las à vontade. Vi várias vezes nesse dia o carinho com os velhos companheiros e conosco também, que diretamente não fazíamos parte da sua história. Lembro que assim que chegamos, o motorista, talvez envergonhado, disse que ia nos esperar lá fora apesar da nossa insistência para entrarmos juntos.



Pelé veio nos receber na porta. Quando já estávamos dentro, Pelé quis saber onde estava o outro "garoto": "Ele disse que vai nos esperar lá fora", o Rei não permitiu: "Vai nada, nós vamos almoçar, conversar, vou chamar ele" e saiu: "Ei, vamos lá, entra, vai fazer essa desfeita, não vai entrar na minha casa? Você é meu convidado". Não teve jeito. Como recusar um convite desses?



Era assim que agia em muitas ocasiões. Quantas vezes estava entrevistando Pelé e aparecia um assessor, ou coisa que o valha para tira-lo dali, e ele colocava a mão no meu ombro. Foi assim comigo e com centenas de companheiros que o entrevistaram muito mais vezes do que eu. Essa era a senha para não interromper a entrevista e o assessor sumia de vista rapidamente.



Lá pelas tantas, fiz a matéria que precisava sobre o Hino e mais alguma coisa do futebol brasileiro daquele momento. Pelé lamentou: "O que estão fazendo com nosso hino é uma vergonha", mas também concordou: "isso é coisa que se aprende desde o primário na escola. Não dá para se impor de uma hora para outra. O ensinamento não vem por decreto, vem por ação e educação".



EM TEMPO: Uma das minhas frustrações é não ter visto Pelé jogando na sua plenitude. Nasci em 1957, peguei só o finalzinho da carreira. Outra é não ter tantas fotos com ele e com tantos que entrevistei nessa corrida vida de repórter. Hoje com o celular o registro ficou mágico e fácil. Naquela época tinha que levar uma máquina fotográfica para ter bons registros e nem sempre alguém fazia por você. Além do que, depois tinha que mandar o filme para revelar e às vezes velava tudo também. Já havia máquinas profissionais, mas seria um fardo a mais para carregar além das maletas, microfones e fios de transmissão.



A pior coisa que existia para o repórter de jornal era ficar no mesmo quarto com o fotógrafo. A primeira coisa que ele perdia era o banheiro. O fotógrafo transformava o banheiro no seu estúdio para revelar as fotos e mandar para jornal, ou revista. Se não estou equivocado depois da Telefoto, que levava um tempão para passar, veio o offset, mas ainda era um problema até chegar aos dias de hoje quando as fotos são passadas instantaneamente.



Em várias viagens os repórteres de Jornal pediam para usar nosso banheiro porque o do seu quarto tinha que ficar no escuro e inutilizável para sua função original. E a gente tocava numa boa entendendo o problema dos amigos.



Além disso, peço desculpas e não deixa de ser mais uma frustração, por não recordar os nomes do cinegrafista e do motorista da Jovem Pan, que me acompanharam à casa do Pelé. Falha grave, mas que atribuo ao envelhecimento do meu cérebro de mais de 60 anos. Se alguém se sentir identificado nesse texto, ou se lembrar de algo, por favor me avise, que a gente inclui aqui também. Valeu?


Nas Fotos: Pelé aparece cumprimentando o grande Mengálvio. Eu estou bem atrás conversando com outros convidados e me deleitando com o momento.












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