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Padres Nossos

Quando criança nunca entendi por que, ao se apostar uma corrida, se dizia “o último é a mulher do padre”. Depois cresci e compreendi que, em alguns casos, talvez se devesse dizer “o último é a ex-mulher do padre”. Mas isso não vem ao caso.


Me sinto tranquilo para falar dos padres porque boa parte da minha formação, da infância até a juventude, deu-se nos campos de futebol dos salesianos e em todo o restante do ambiente.


Um dos meus melhores amigos é padre e o fato de ele até hoje ser fiel ser torcedor do Guarani de Campinas é o que me faz acreditar em penitência.


Como não existe escola salesiana que não tenha, no mínimo, um campo de futebol, não é difícil de imaginar que eu tenha visto muitos padres jogarem bola. E, apesar de da relação com Deus, alguns eram o verdadeiro diabo em campo.


Padre Reami, por exemplo, havia sido goleiro aspirante do Vasco da Gama do Rio de Janeiro. O chamado de Deus o fizera abandonar a carreira futebolística. Quem sabe, se tivesse sido na época do Eurico Miranda, o fato de conhecer Deus pessoalmente ajudasse a coordenar melhor as duas coisas.


Era metade dos anos 70 quando participamos de uma partida jogando no mesmo time. Campo enlameado. Mas mesmo jogando sem luvas, Padre Reami estava pegando todas.


Atrás do gol, aqueles caras de sempre, especialistas em atazanar a vida do goleiro. E ao descobrirem de quem se tratava, passaram a aporrinhar ainda mais.


— O goleiro é padre e tem pernas de mulher.


— O goleiro é padre e tem jeito de bicha.


A todas essas provocações Padre Reami respondeu com um sorriso. Estava tranquilo e sereno como sempre. Até o momento em que um deles falou:


— O goleiro é padre e além de tudo é frangueiro.


Ali acabou a brincadeira. Padre Reami olhou para trás com cara de professor que acabou de receber o salário.


— Frangueiro? Frangueiro é a puta que os pariu! – não se ouviu mais nem um pio até o final do jogo.


Quase na mesma época, joguei uma partida ao lado de Padre Aílton, que compensava a baixa estatura com toques rápidos e inteligentes. Visão de jogo. Com ele a bola rolava fácil. Numa jogada perto da linha lateral, Padre Aílton aplicou uma maravilhosa “caneta” no volante adversário.


Ferido em seus brios, o volante resolveu dar o troco pouco depois. Tentou fazer uma jogada de efeito na frente do padre, mas pisou na bola, caiu sentado e deixou a redonda escapar pela lateral. Padre Aílton limitou-se a olhar para o alto e, parafraseando “um certo Jesus”, disse:


— Pai, perdoai. Ele não sabe o que faz.


Anos antes, lá pelos idos de 1968, o Oratório Festivo de Dom Bosco, na Mooca, em São Paulo, era comandando pelo Padre Milton, um sujeito alto, meio pescoçudo, que usava óculos e... batina. Batina preta. Sim, batina era fashion naquele tempo. Era a moda eclesiástica.


Muito se ouvia dizer que Padre Milton era um craque, mas nunca ninguém o vira jogar, pois ele se limitava apenas a organizar os times.


Certo dia, não me lembro bem o porquê, Padre Milton resolveu jogar no meu time. Entrou em campo de tênis emprestado, óculos devidamente preso ao rosto por um elástico e camisa do time – camisa 10 – por cima da batina preta. E em pouco tempo percebeu-se que ele era mesmo bom de bola. Canhoto, clássico, dominou o meio do campo.


Porém, quando se trata de futebol, não existe padre, nem bispo, nem irmão. Catimbar o jogo é uma lei geral. Por isso, o zagueiro adversário passou a provocar chamando o padre de “Batman”. Só se ouvia “marca o Batman! Pega o Batman! Não dá espaço pro Batman”. E aqui entre nós, a figura que corria deixando esvoaçar boa parte da batina preta não ficava devendo quase nada ao Cavaleiro das Trevas.


Lei da Física: toda força aplicada recebe a ação de uma força contrária. Por isso, ao receber uma bola na grande área, Padre Milton dominou na coxa, deu um chapéu no zagueiro falastrão e mandou de canhota pro fundo da rede. Em seguida, aproximou-se da sua vítima e, estendendo-lhe a mão, disse: “Muito prazer, Pinguim. Eu sou o Batman!”.


Mas nem todo padre é bom de bola. Alguns são bons na arte de torcer; sobretudo, torcer com o nariz colado ao alambrado. Houve um tempo em que na Mooca, mais precisamente no campo da Rua Javari – famoso estádio do C. A. Juventus –, o alambrado era assiduamente frequentado pelo padre Martini, que nunca se fez de rogado em trazer o Todo-Poderoso a campo. Tanto que ficou famoso o fato ocorrido no jogo em que o Juventus, sustentando um zero a zero, sofria um verdadeiro bombardeio do adversário. O gol parecia ser uma questão de tempo. Só não aconteceria por milagre. E de milagre o padre entendia.


— A mão de Deus tá no nosso gol – berrava, com seu sotaque macarrônico.


E tome bola na trave.


— Orra, meu; eu não disse? A mão de Deus tá no nosso gol!


Último minuto de jogo. Falta contra o time da Mooca na entrada da grande área. Todos olharam para o padre Martini. E ele continuava confiante.


— Orra, meu! Deus botou a mão na frente do nosso gol!


O juiz apitou. O 10 do time adversário, canhoto, bateu colocado e com efeito. A bola entrou o ângulo. Um a zero. Fim do jogo.


Procurando uma explicação, a galera olhou para o padre Martini. Mas ele não afinou. Depois de algum tempo, suspirou fundo e concluiu:


— Orra, meu! E não é que Deus tirou a mão?!