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OSMAR, GALVÃO E EU

Todo menino brasileiro nasce e cresce com um sonho: ser jogador de futebol.

Contudo, não demorou muito para que eu percebesse que para tal atividade não basta, apenas, ter vontade. Daí que, justamente por não levar muito jeito pra coisa, precisaria rapidamente dar um jeito de me manter perto da bola, mesmo que sem chutá-la.

Como sempre fui muito falante, o caminho que mais fácil se apresentava era o de locutor esportivo. Mas até que eu pudesse desbancar Osmar Santos ou dar um chega pra lá no Galvão Bueno, é claro que eu teria de treinar. Assim, tratei de narrar os jogos de botão que, todas as noites, ocupavam minha agenda pouco antes de eu ir dormir.

Espalhar aqueles círculos de plástico pelo quadro de madeira, conhecido como "Estrelão", foi meu passatempo preferido. Ou melhor: foi minha grande paixão. Ali nasceu meu amor pelo rádio, pois que narrava todos os lances que eu mesmo fazia acontecer. Mas não jogava contra ninguém – era eu contra mim mesmo. É que sempre que chamava algum amigo para jogar o clássico da noite acabava em briga.

Mas o fato é que no quartinho dos fundos daquele apartamento do bairro do Sumarezinho, onde passei a maior parte da minha adolescência, nasceria um grande locutor. Pelo menos era isso que eu esperava, já que não economizava no gogó na hora da narração.

Sei que você, agora, deve estar pensando que o meu time de botões do Palmeiras ganhava todos os jogos. Não ganhava, não. Na verdade, ganhou alguns, mas perdeu outros. A imparcialidade era condição básica para o jogo, principalmente porque organizava campeonatos com tabela, escala de árbitro, regulamento, etc. Mas admito que, quando o Verdão perdia, tinha vontade de atirar às paredes aqueles círculos de plástico e, imaginando a cara de cada jogador, olhar bem na fuça de cada um e xingar pra valer.

Certa vez, Palmeiras e Corinthians chegaram à decisão do Campeonato Paulista dos meus botões. Mesmo descrevendo cada lance com total honestidade, evidentemente torcia como um louco não pela vitória palmeirense, mas pela derrota corintiana. Jogo equilibrado, no qual a dupla Sócrates e Casagrande não conseguia se impor à marcação de Luís Pereira e Vágner Bacharel.

Tudo caminhava para a prorrogação até que, quase nos acréscimos, houve uma falta na entrada da área para o time “deles”. Gelei: o craque Zenon era um especialista naquele tipo de lance. Arrumei o melhor que pude o goleiro João Marcos, representado por uma caixinha de fósforos com duas pilhas ray-o-vac dentro, e rezei para que o camisa 10 alvinegro mandasse a bolinha achatada para atrás da cômoda, que era o local onde eu colocava o “Estrelão”.

Assim que o árbitro Roberto Nunes Morgado apitou, dei com a palheta no botão, este bateu na bola e ela, como se tivesse sido colocada com as mãos, entrou no ângulo superior esquerdo. Gol do Corinthians, e não haveria tempo hábil para que o Verdão conseguisse o empate.

Fiquei com tanta raiva, mas com tanta raiva que, em vez de encher a casa com o grito de “gol”, desandei a berrar terríveis palavrões, daqueles que somente meninos de 12, 13 anos parecem conhecer. O que não me conformava era com o fato de eu mesmo ter feito o Palmeiras perder. Nunca senti tanta raiva de mim quanto naquela noite.

Ainda pensei em dar alguns acréscimos para ver se o Palmeiras empatava, mas não foi possível. Assim que ouviu os tais palavrões, minha mãe entrou no quartinho dos fundos, me deu algumas chineladas e decretou o fim daquele clássico. Ainda tentei argumentar que, se o jogo não fosse reiniciado, o Corinthians seria campeão paulista, mas não adiantou. Naquela época, a fase palmeirense era tão ruim que nem no futebol de botão o time conseguia ganhar.

Na noite seguinte, antes que começasse o Campeonato Brasileiro, meu pai veio até mim e decretou: a partir de então, se eu quisesse jogar, teria que ficar mudo.

E assim o mundo perdeu um novo Osmar. Ou um novo Galvão.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br