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OS PERIGOS DA AUTOILUSÃO


Houve um tempo, e que se coloque “tempo” nisso, em que os campeonatos regionais eram tão ou ainda mais valorizados do que todas as demais competições, incluindo-se aqui o Brasileirão e até mesmo a Libertadores. Houve até edições do principal torneio sul-americano às quais o País sequer enviou representantes (1966, 1969 e 1970), e muitas vezes as equipes, sobretudo as paulistas, preferiram escalar reservas a enviar a outros recantos do continente seus principais jogadores.

O tempo passou, o mundo mudou, e o futebol também. Hoje, o ‘Paulistão”, o ‘Cariocão” e todos os demais “ãos” são tratados como campeonatos-treinos para os grandes brasileiros, e já houve casos, como os de Atlético/PR, Flamengo/RJ e Palmeiras, que em muitos de seus jogos escalaram reservas e até mesmo jogadores das categorias de base. Daí que, quando um time o título de seu estado, acaba muitas vezes iludido por seu próprio feito e, quando começam as competições mais importantes – e consequentemente também mais difíceis -, os maus resultados passam a se tornar quase contínuos.

É o que vem acontecendo com o São Paulo/SP. Campeão paulista de 2021, o clube do Morumbi pôs fim a um incômodo jejum que já durava quase 9 anos, e após levantarem a taça seus dirigentes, jogadores, treinador e torcedores acreditaram que o clube havia voltado a seus tempos de glória. Ledo engano: a equipe foi eliminada da Copa do Brasil, da Copa Libertadores e hoje, no Campeonato Brasileiro, oscila entre a metade e a parte de baixo da tabela de classificação. Em outras palavras: ainda existe o risco de terminar o torneio tendo como objetivo principal evitar o rebaixamento e, assim, apenas se manter na elite do futebol nacional.

Por tudo isso, o técnico Hernán Crespo está cada vez mais pressionado. Tenho para mim que, se não houvesse no regulamento a proibição de demissão de apenas um treinador no ano, a esta altura ele já estaria dançando um tango em Buenos Aires/ARG. Contudo, após não conseguir vencer nem mesmo a Chapecoense/SC, pior time do Brasileirão e já praticamente rebaixada, no último domingo, o comandante argentino está por um fio. Se o Tricolor perder o clássico para o Santos, na próxima quinta-feira, 07/10, na Vila Belmiro, é quase certo que ele não terá tempo sequer de ir à entrevista coletiva.

Porém, com ou sem o ex-centroavante que brilhou pelo mundo à frente de seu elenco, o fato é que o São Paulo/SP precisar acordar para a realidade. Ter ganhado o Paulistão foi uma boa, até para diminuir a pressão pela ausência de conquistas, mas de nada adiantará se, ao final do ano, seus milhões de torcedores, que formam a terceira maior torcida do País, irem às lágrimas devido ao rebaixamento, algo até aqui inédito na história do clube em termos nacionais.

É tempo de despertar, Tricolor. Antes que seja tarde demais.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 15 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br