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O VAR desmente Havelange

Lembro de algumas vezes ter entrevistado o falecido presidente da Fifa, João Havelange, e de ter perguntado sobre a tecnologia no futebol. Ele era totalmente contra e dizia que essa ferramenta acabaria com a graça, com a discussão e com a polêmica no futebol. Dizia que o que fazia o futebol ser tão diferente de outros esportes era essa discussão pós jogo nos bares da vida, nas casas, entre torcedores rivais e afins, além de haver a chance de um time pior ganhar do melhor. Esses eram os ingredientes perfeitos para manter o futebol como número um do Mundo, segundo ele.



Antes eu queria dizer que entrevistar Havelange era difícil. Primeiro porque ele se colocava como presidente do Mundo dizendo que tinha mais países na Fifa do que a ONU. Segundo porque era mesmo muito empreendedor e inteligente, ou esperto, como queiram, e conseguiu negociar com gente de todos os credos, de todas as raças e de todas as ideologias políticas. Era um grande negociador e quer queiram, quer não, transformou a Fifa em uma grande empresa. Hoje é um colosso internacional com todas as virtudes de colosso internacional e os defeitos também. Antes dele a Fifa era uma portinhola mal ajambrada, em Zurique, hoje abre as portas para o Mundo. Não deixa de ser uma proeza.



Na Copa de 1986, no México, fui escalado pelo Edison Scatamachia para ir a um Congresso da Fifa e conseguir uma palavra de Havelange para homenagear o velho Marechal Paulo Machado de Carvalho. Eu estava na Rádio Record na época. Bom, imagine o burburinho que estava à véspera da Copa e dirigentes do Mundo inteiro querendo se aproximar do homem. Lá fui eu. Tinha uma boa amizade com o Major José Bonetti, que sempre esteve ao lado de Havelange. Liguei para ele e expliquei a situação. Bonetti me avisou o seguinte: "Ele vai te atender, mas vá de terno e gravata. No Congresso ele não fala com ninguém sem terno e gravata". Sorte a minha, tinha levado um terno na mala e isso me livrou de um "mico".



Fui bem atendido sob os olhares dos dirigentes do Mundo que queriam saber como um repórter abelhudo tinha conseguido chegar no presidente para uma entrevista mesmo que muito rápida em meio a um evento importante e só deles. Mas quando ouviram a conversa entenderam. É papo de brasileiro com outro brasileiro. Foi gentil, agradeceu-me por lembra-lo de Paulo Machado de Carvalho, fez uma bela menção ao velho Marechal e esticou a entrevista mais do que esperava. Foi aí que disse tudo aquilo que está no primeiro parágrafo. Ele era frontalmente contra a parafernália eletrônica no futebol.


Mas o VAR desmentiu Havelange. A propalada justiça que traria não trouxe totalmente, ao contrário, em alguns casos é tão injusto quanto as supostas arbitragem "compradas" de outrora. A polêmica até aumentou e com o advento da Internet, das Redes Sociais e das aperfeiçoadas transmissões por televisão a discussão não para no dia seguinte, ela continua por meses e até por anos a fio. Tudo se justifica e nada se justifica. Até porque não há um critério único para interpretar as imagens. Ainda é o ser humano que decide e se eu vejo de um jeito você pode ver de uma maneira totalmente diferente..



Acho que se fosse ainda vivo Havelange gostaria de ver de perto que suas teorias continuam corretas mesmo por vias tortas ou tortamente tecnológicas ou com aquilo que chamo de preciosismo digital. A nova geração discute futebol como antes e às vezes até mais. Já aprendemos o que significa a sigla VAR: "VAI ARRUMAR RESULTADO". Para o bem e para o mal. Ou seja, tudo mudou, mas nada mudou.