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O FLAMENGO/RJ E SEUS BOIS DE PIRANHA


Nos tempos de um Brasil que há séculos não existe mais, havia uma ação muito comum aos boiadeiros, profissionais que conduziam centenas de cabeças de gado pelos quatro cantos deste País. Sempre que precisavam ultrapassar um rio infestado de piranhas, algo comum naquela época, eles sangravam um dos animais e o levavam a uma das margens, a fim de que os ávidos e carnívoros peixes o atacassem impiedosamente. Ao mesmo tempo, conduziam para a outra margem todo o restante da boiada, que assim conseguia passar sem ser notada. Ou seja: os profissionais sacrificavam um dos seus para salvar todos os outros.


Por mais antiga que seja, e de fato o é, tal expressão ainda pode ser utilizada hoje em dia, sobretudo no futebol. Sábado passado, após a derrota e a perda do tricampeonato da Copa Libertadores da América para o Palmeiras, a torcida do Flamengo/RJ rapidamente escolheu dois culpados – ou, se preferirem, dois “bois de piranha”: o técnico Renato Gaúcho e o volante Andreas Pereira. O treinador acusam de ter levado um nó tático de Abel Ferreira (o que é verdade) e de ter não apenas demorado, mas errado nas substituições (o que também se deu). Já o segundo execram por ter falhado de forma grotesca no lance do segundo gol palmeirense (e eis aqui outro fato incontestável).


Ocorre, porém, que demonizar este ou aquele não leva a lugar nenhum e nem resolve problema algum. Mesmo que Renato e Andreas tenham sido os protagonistas do fracasso rubro-negro, foram vários os motivos que contribuíram para mais um título palmeirense. Na verdade, quase tudo deu certo para o Verdão, e quase tudo deu errado para o Mengão. Confiram:


1 – Dois dos principais jogadores flamenguistas, Bruno Henrique e Arrascaeta, estavam visivelmente longe das ideais condições físicas e técnicas, já que se contundiram com gravidade pouco antes da grande final.


2 – Já o elenco palmeirense, com exceção do suspenso Marcos Rocha, estava todinho, e em plena forma, à disposição de Abel Ferreira. Detalhe: Mayke, que substituiu o titular da lateral direita, foi o melhor jogador em campo.


3 – A decisão de Renato em sacar Michael, o melhor da equipe nas últimas semanas, provou-se equivocada, já que isso diminuiu o poder de penetração e a força ofensiva de seu time.


4 – A decisão de Abel Ferreira em alterar o esquema para o 3-5-2 mas, sobretudo, de deslocar à ala esquerda o meia Gustavo Scarpa fez com que o adversario se visse sem muitas opções e, principalmente, sem muito espaço para a criação de suas jogadas, até porque o Palmeiras tinha, quando atacado, cinco jogadores marcando em sua intermediária defensiva.


5 – Mesmo assim, o Flamengo/RJ chegou ao empate devido à qualidade técnica de seus jogadores e, também, a uma falha de Weverton, que viu uma bola entrar em seu canto. Contudo, poucos se lembram de que, já aos 40 minutos do segundo tempo, Michael perdeu uma chance claríssima, chutando cruzado e para fora tendo apenas o goleiro alviverde à sua frente.


6 – Já pelo lado do Palmeiras, a única real oportunidade de gol criada após a abertura do placar foi aproveitada, ainda que Deyverson por pouco não a tenha perdido ao chutar meio que em cima de Diego Alves.


Contudo, a verdade é que o principal motivo da vitória palmeirense e da derrota flamenguista não foi físico, mas sim psicológico. Ciente de sua superioridade frente ao adversário – ou melhor: frente a todos os adversários -, o time carioca tinha certeza absoluta de que venceria, talvez até mesmo com relativa facilidade. E, como todo mundo sabe e como tanto apregoaram os jogadores alviverdes após o título, no futebol jamais se ganha de véspera, não se ganha com palavras, não se ganha com soberba.


Portanto, para voltar a ser o protagonista no Brasil e na América do Sul, cabe mais ao Flamengo/RJ admitir seus próprios erros (até para que não corra o risco de repeti-los) do que procurar dentre os muros da Gávea seus próprios bois de piranha.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 15 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br