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O dia que o Bar da Linguiça desbancou o suntuoso Hotel Ritz

Copa do Mundo tem muitas histórias dentro e fora do campo. As do campo são contadas nas transmissões com imagens cada vez mais claras e as outras são da convivência dos atletas e dos repórteres/jornalistas que cobrem o evento. Há histórias saborosas do cotidiano de uma grande cobertura como essa. Afinal, são muitas semanas juntos.



Na Copa de 1998, na França, a equipe da Jovem Pan estava concentrada na Rua de Vaugirard, perto do Centro de Imprensa, que ficava do outro lado da Avenida. Do lado tinha uma cantina italiana chamada La Prima, que ficava aberta até mais tarde mesmo no período de férias parisienses para atender aos turistas e trabalhadores da Copa.



Foi lá que vimos pela primeira vez o garçom trazer à mesa uma maquininha de cartão de crédito para pagar a conta. Era novidade. Aqui ainda era aquela gerigonça de papel carbonado que a gente tinha que assinar e ficar com a cópia que soltava uma tinta preta desgraçada. Foi lá também que o Milton Neves discutia com o garçom toda a noite porque os pratos servidos tinham pouca comida para saciar a fome de um corpanzil de quase 1,90 de altura.



A solução, para escândalo do Maître e dos garçons, foi pedir dois pratos para se satisfazer. E toda a noite era a mesma cena: "Eu quero dois desse" e a réplica espantada do garçom: "Vem mais alguém jantar com o senhor?. "Não, é para mim mesmo, estou com fome". Para os franceses isso era pior que misturar vinho branco com tinto, mas com o tempo eles se acostumaram: "Ah, ces brésiliens" (Ah, esses brasileiros).



Tivemos sorte, no entanto, com o nosso cicerone parisiense, que já era mais francês que brasileiro. Monsieur Reali Junior era correspondente da Jovem Pan, em Paris, há décadas e conhecia todos os cantos da Cidade Luz, e claro, falava francês fluentemente. Era um Citoyen français (Cidadão Francês) na acepção do termo. Mas ele também teve dificuldades com esses amigos brasileiros. Foram algumas situações engraçadas.



Reali era um cara afável que ajudava todos que lá chegavam. Fazia isso com prazer mesmo com companheiros de outras emissoras. Tinha boas dicas e bons caminhos para se chegar a qualquer lugar, na França, e também em toda a Europa. Um dia eu, Wanderley Nogueira e Flávio Prado estávamos gravando uma matéria e fomos surpreendidos com Reali gaguejando com José Silvério no fundo do estúdio. É que quando Reali ficava nervoso ele gaguejava um pouco. Talvez por ter muita classe e para não xingar o "teimoso" interlocutor.



Também não era para menos. Silvério estava ensinando ao Reali como se andava, em Paris. Vê se pode? Foi gozado de assistir: "Silvério, acho que não é esse o caminho" e o grande locutor repetia: "A Ana me falô". Ana era a filha de Silvério, que estava estudando na capital francesa há pouco tempo. Lembro que no final da Copa eu saí meia hora depois do Reali, Silvério e Flávio Prado para Saint Denis, e cheguei antes. Quando perguntei o que houve, o Flávio disse: "Viemos pelo caminho do Silvério". Na verdade era só pegar um metrô ao lado do hotel e desembarcaria praticamente embaixo do estádio. Isso a Ana não falô.



Em meio a correria da Copa, tivemos um dia mais folgado e o Reali sempre solícito virou nosso guia, em Paris. Estávamos confortáveis. Não tinha erro. O homem conhecia tudo e em alguns lugares era recebido como velho e adorado cliente. Fomos almoçar e depois dar umas bandas por lá. Luiz Alexandre Rodrigues, o Choquito, era nosso técnico, ou Engenheiro de som, e raramente saia do Centro de Imprensa. Estava, em Paris, mas pouco via da cidade. Era injusto. Por isso o convidamos para vir com a gente e sair um pouco daquele estúdio. Afinal já passava de um mês fora de casa.



Chegamos no Champs Élysées e quando nos encaminhávamos para o Arco do Triunfo, o Choquito pergunta para o Reali: "Você conhece o Largo do Rosário, em Campinas?". Nossa, porque ele foi se lembrar disso agora? Quando chegamos à Torre Eifel, o Choquito pergunta ao Reali se ele conhecia o Pico do Jaraguá. A apoteose mesmo foi em frente ao Hotel Ritz, um dos mais suntuosos e conhecidos do Mundo. Foi onde a princesa Diana passou seus últimos momentos com Dodi Al-Fayed antes de morrer num desastre de automóvel dentro de um túnel.



Quando Reali ia falar alguma coisa sobre a história relacionada a Diana, que namorava o filho do dono do Hotel, Choquito saca a pérola do dia: "Reali, você conhece o Bar da Linguiça?". Ai acabou, chega do passeio. Amanhã ou outro dia que cada um vá por sua conta. Assim é demais. Mas o que tem a ver o Ritz com o Bar da Linguiça? Só o Choquito para responder. Coisas e causos da Copa do Mundo. Tudo baseado em fatos reais e com testemunhas.



Em tempo: O falecido Reali Junior foi um cara espetacular, além de um jornalista do mais alto nível. Até pela distância, não nos víamos muito, mas toda vez que alguém ia para a França, ou quando ele vinha para o Brasil, era um reencontro saboroso com várias histórias, piadas e amizade verdadeira. Reali era um cidadão do Mundo às margens do Sena. Saudade de você, meu caro amigo. E acho que posso falar por todos que foram citados nesse post. Eles concordarão comigo. Tenho certeza.




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