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O último jogo do grande narrador

Acabou a Copa do Mundo, Argentina campeã e Globo sem Galvão Bueno. Foi a última narração do grande narrador da história da TV brasileira. Para mim ao lado de Luciano do Valle e Geraldo José de Almeida, Galvão é o melhor narrador da história. Há outros extraordinários e tão marcantes quanto, mas esses três acho que fizeram a diferença. Silvio Luiz é outro que merece ser citado também. Muitos podem não concordar e talvez com razão, mas nós aqui no Brasil também temos a mania de quando se elogia alguém é como se estivesse criticando outro quando na verdade é apenas questão de gosto ou opinião. Vale, é claro, o conjunto da obra.



Galvão Bueno é a voz da Globo há muito tempo. Ele se confunde com o Plim-Plim que anuncia a ida e a volta dos comerciais. Faz bem a Globo em aproveita-lo em outras funções. Não se joga fora tanto talento por causa da idade. Ele tem nome e categoria para comandar muita coisa lá dentro. Quando a Jovem Pan estupidamente demitiu Cláudio Carsughi, uma voz que era marcante e que lembrava a rádio cada vez que estalava no nosso ouvido, eu tive o desplante de dizer que fizeram uma "cagada". Tempos depois alguns dos famosos mandões chegaram à conclusão que não deviam ter feito daquela forma. Fizeram melhor com o genial Joseval Peixoto. Pelo menos aprenderam.



Fazendo uma analogia da minha chegada na década de 80 à rádio Gazeta, sem querer ser pretensioso, sei o que estão sentindo os companheiros do Galvão Bueno. Sem falar nos telespectadores que perdem um ícone da narração esportiva. Galvão chorou muito na sua despedida. Sabe que a melhor etapa da sua vida não voltará mais a não ser em algumas homenagens pontuais, se é que acontecerão mesmo. As pessoas esquecem rápido. O Boni disse que saiu da Globo e disseram que seria um Consultor por seu vasto conhecimento sobre a emissora que ele criou. Nunca foi consultado, é apenas um quadro na história da TV. Mas por tudo que fez é um quadro de honra.



Quando cheguei na Gazeta lá estava Pedro Luiz Paolielo, considerado um dos maiores narradores do seu tempo. Estava na função de comentarista, tinha abandonado a narração em 1974, numa época que o rádio tinha mais influência nas transmissões do que a própria TV. Lembro de Hélio Ribeiro, no programa O Poder da Mensagem, na Rádio Bandeirantes, numa segunda-feira, anunciando com emoção que Pedro Luiz tinha se despedido na véspera. Respeito e admiração de um grande comunicador anunciando o encerramento da carreira de um genial concorrente. Tudo certo, afinal Pedro também fazia parte da história da Bandeirantes.



Com Pedro Luiz aprendi que comentário tinha que ter começo, meio e fim. A Gazeta era uma escola para todos nós que chegávamos à São Paulo e para aqueles que queriam começar uma carreira. Foi lá num concurso de narração que Galvão Bueno foi aprovado pelo extraordinário Roberto Petry ao lado de Flávio Prado e ambos iniciaram suas belíssimas carreiras. É a prova mais concreta para o garoto de hoje que ninguém começa por cima ou sendo o melhor. As pessoas vão conquistando isso com o tempo. É tijolinho por tijolinho.



Ainda na Gazeta, na Copa de 82, da Espanha, o genial Flávio Araújo, talvez o mais técnico narrador de rádio que eu tenha conhecido e trabalhado, também se despediu. Quando terminou o jogo no Sarriá, com o Brasil eliminado da Copa no jogo histórico contra a Itália, Flávio desabou e chorou. Era o jogo da despedida, o último de sua vida de narrador, o tempo cobrou dele como cobra de todos.



Sérgio Cunha, outro grande comentarista e homem de rádio que conheci, foi meu professor por toda a vida pelas lições que me deu, estava ao lado de Flávio no seu último jogo e provavelmente tenha chorado junto. Foi ele quem me contou como Flávio Araújo chorou como criança na sua despedida. É que os grandes sabem que é difícil chegar ao posto máximo, mas que também é muito difícil ir embora. O consolo é saber que a obra foi bem feita e deixará legado e saudade.



Obrigado, Galvão, Pedro, Flávio e tantos outros que ajudaram a construir essa bela história da comunicação. Que os que estão chegando mantenham o alto nível. Eles também um dia irão embora, vão se despedir, e deixarão sua história e seu legado. É a Roda Viva da Vida.




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