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NÃO DÁ LIGA


O futebol brasileiro padece eternamente do efeito cultural conhecido como Lei de Gerson. Levar vantagem em tudo, sem levar em conta as questões éticas ou morais. Faz o errado parecer certo ou justifica o erro com a intenção de obter vantagens. O craque Gerson nem imaginou ao gravar o comercial de uma marca de cigarros na década de 70 que iria criar o perfil brasileiro de levar vantagem, em tudo, certo? Ele não tem culpa, mas a falta de caráter já estava plantada com um tal jeitinho brasileiro, o que dá na mesma.


Essa mania cultural brasileira de fazer da esperteza o caminho tortuoso, ganha impulso quando se radicaliza o discurso nacional. O importante é vencer, seja porque meio for, e amassar seu adversário. Fazer valer a vontade de um em detrimento dos outros, nada mais é do que a tirania personificada na cultura nacional. Não é atoa quer vivemos sempre saudosos de ditaduras e temos enormes dificuldades de dispensar a força em detrimento do consenso e do bem comum.


Esse pensamento, levar vantagem em tudo e fazer prevalecer seu interesse na base do enfrentamento, impede qualquer evolução do consenso, também no futebol. Uma Liga exige isonomia. Princípio do direito que não permite distinção entre pessoas ou entidades que se encontram numa mesma situação. Enquanto houver essa falta de caráter coletivo, não haverá elo possível para unir o futebol. Infelizmente, nem unir a sociedade brasileira na busca de soluções para seus problemas. O interesse de um, impede o bem geral de todos eternamente.


Hoje quem exerce a todo custo a famosa Lei de Gerson é o Flamengo. Não pela cultura do clube mais popular do país. O motivo é concepção moral dos dirigentes atuais, ligados comercialmente aos tiranos de plantão. Para obter pequenas vantagens, atropela o bem comum e assim preserva-se no poder. Por ser passional, o futebol alimenta esse vexame moral e ético com a justificativa de ser suas cores mais importante do que sua finalidade. Os adversários tornam-se inimigos a serem combatidos a qualquer custo. Vencer, seja de que jeito for, é a justificativa imbecil que não combina com o princípio do esporte.


Para obter a vantagem indecente, são utilizadas armas imorais. Exemplo, diante do apelo moral dos demais, o órgão julgador encarrega os julgadores parciais de travar a ordem ética. Assim, um “torcedor” do time que terá vantagem, impede o direito dos demais. Isso na hipótese simplória, da passionalidade. Lógico, que outros interesses podem influenciar na postura. Afinal de contas, a Lei de Gerson aponta o caminho, levar vantagem em tudo. É até um estímulo filosófico para a implantação da corrupção, rs.


Enquanto tal lei imoral perdurar no imaginário nacional, não há ética ou bom senso capaz de unir forças. No futebol, qualquer evolução na direção de uma Liga Profissional, será bombardeada pelo desejo inconfesso de pisar no seu adversário ou tratá-lo como inimigo. Na vida comum estaremos sempre de olho na galinha do vizinho, não para tornar nossa galinha mais produtiva, mas para lançar o olhar da inveja, um sentimento de frustração ou rancor diante da capacidade do outro de obter sucesso.