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MACAQUITOS


Buenos Aires/ARG, 24 de agosto de 1994.


A delegação do São Paulo chega ao Estádio José Amalfitani para a primeira partida final da Copa Libertadores da América, diante do Vélez Sarsfield/ARG. Coincidentemente, o táxi que me leva ao local estaciona no exato instante em que jogadores e membros da comissão técnica tricolores começam a desembarcar do ônibus. Deparo-me com Muricy Ramalho, então auxiliar-técnico de Telê Santana, e por nos conhecermos dos treinos no CT da Barra Funda nos cumprimentamos e trocamos algumas palavras durante o trajeto – o dele para os vestiários, o meu para o espaço reservado aos jornalistas estrangeiros.


Durante os poucos segundos que durou tal situação, ouvimos todos os tipos de ofensas possíveis por parte dos torcedores locais. Se tal postura, já naquela época, não causava surpresa, dadas a rivalidade e a falta de educação de grande parte do povo vizinho do Sul, o mesmo não se pode dizer em relação a um verso específico cantado pelos “hinchas” portenhos, que me chamou a atenção e ficou guardado na memória devido ao altíssimo grau de preconceito que possuía: “Brasileño, ¿usted me escucha? ¡Es macaquito, hijo de puta! (Brasileiro, você me escuta? É macaquinho, filho da puta!”).


Mar del Plata/ARG, 6 de março de 1996.


Brasil e Argentina fazem a última partida do quadrangular final do Torneio Pré-Olímpico de 1996. Mesmo com ambas as seleções já classificadas aos Jogos de Atlanta/EUA, a luta para se saber quem será a campeã é árdua e muito viril. Os donos da casa abrem 2 a 0, gols de Lopez e Delgado, mas na etapa final, e num intervalo de apenas três minutos, a Seleção Brasileira chega ao empate por meio do meia Beto e do centroavante Sávio, resultado que garante o título aos brasileiros por melhor saldo de gols.


Na tribuna de Imprensa, levanto-me e começo a me preparar para ir aos vestiários do time comandado por Zagallo a fim de colher depoimentos e informações para a página inteira que teria de enviar à redação de A Gazeta Esportiva, jornal em que na época trabalhava. De repente, sou atingido por uma cusparada em meu braço direito, acompanhada por gritos de “Mono!”, que significa “macaco” em espanhol.


Se tal postura, já naquela época, não causava surpresa devido à falta de educação de grande parte do povo vizinho do Sul, o mesmo não se pode dizer em relação a quem me cuspiu e ofendeu: tratava-se de um idoso cuja aparência indicava uma idade certamente superior aos 70 anos. Não reagi com violência, até por respeito aos cabelos brancos do meu agressor, mas me permiti lhe perguntar: “El señor hace lo que hiciste y yo soy el mono?” (O senhor faz o que fez e eu é que sou macaco?).


Estes dois episódios, dos quais me tornei protagonista mesmo sem jamais querer ter sido, mostra o quão antigo e enraizado é este problema não apenas na Argentina, mas em todo o planeta. Aliás, até Pelé já disse, inúmeras vezes, que foi ofendido com palavras preconceituosas durante toda a sua carreira nos gramados e nas arquibancadas da vida. Portanto, o problema não é especificamente o racismo, mas sim o fato de ele não apenas existir e, pior ainda, tornar-se ainda mais contundente, escancarado até, mesmo estando todos nós já no Século XXI. Por isso, punições mais duras, como perda de mando de campo, de pontos do jogo ou mesmo de vaga em competições devem ser tomadas com urgência pelas entidades que regem o futebol nos países, nos continentes e no mundo.


Se isso não acontecer, não apenas eu, mas qualquer outro brasileiro seguirá sendo considerado por muitos apenas mais um “macaquito”.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br