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La Bombonera assusta mais que o Boca

Se você chegar a Buenos Aires e perguntar pelo Estádio Alberto José Armando corre o risco de não ter resposta, mas se perguntar por La Bombonera todos saberão do que se trata independente de ser ou não torcedor do Boca Juniors. É um desses estádios lendários que assustam o adversário e ganham jogo para o dono do campo. Jogar lá é sempre difícil. Ganhar então nem se fala.



O Corinthians decide a vaga na Libertadores justamente nesse estádio, mas já fez história lá dentro com Romarinho empatando um jogo quase perdido, em 2012. Ali diminuiu um pouco o estigma do estádio que jogava sozinho. A decisão veio para o Pacaembu e o Corinthians acabou campeão da Libertadores de forma irretocável.



O Santos na década de 60 ganhou do Boca, em La Bombonera, com gols de Pelé e Coutinho na finalíssima da Libertadores de 63. Alguns jogadores disseram que o Santos não jogou bem e que no intervalo, Pelé, que quase não se pronunciava em preleção nenhuma, pediu maior empenho porque todos tinham um nome a zelar. Mesmo assim o time voltou para o segundo tempo do mesmo jeito, mas Pelé e Coutinho voltaram jogando tudo e mais um pouco levando o time a vitória.



La Bombonera é um estádio construído, em 1938, portanto ultrapassado em vários detalhes, mas tem o dom, talvez por sua arquitetura, de colocar a torcida praticamente dentro do campo e os Xeinezes não param de gritar nem quando estão perdendo. É uma histórica reação de sua torcida passada de pai para filho. A região onde está fincada sua construção não é das mais nobres da capital argentina, muito pelo contrário.



A região de Caminito no bairro é famosa, mas também perigosa. Tem o seu charme, mas é melhor evitar, penso eu. São muitos cortiços espalhados lembrando um tempo mais romântico, que não existe mais. É ponto turístico, mas lembra bem aquela velha mania de terceiro mundo que atinge a Rocinha, no Rio, ou o Pelourinho, em Salvador. Vale pela história, mas também é um convite para ver de perto nossas desgraças. Se for a Buenos Aires vá a Puerto Madero, onde se come melhor e é mais bonito. Ir a uma casa de Tango também não faz mal. Gosto do Senhor Tango, mas há várias de muita qualidade. É ótimo programa.



Estive muitas vezes em La Bombonera. Chegava bem antes do jogo por causa das transmissões, mas para sair era sempre um tormento. Principalmente tarde da noite. Foi ali que eu vi o Palmeiras ser roubado por Ubaldo Aquino e Companhia contra o Boca. Muitos brasileiros tropeçaram lá ou foram prejudicados mesmo. Na época que o falecido Julio Grondona, presidente da AFA, mandava na Conmebol e tinha cargo importante na Fifa, só dava Boca. Primeiro porque o time realmente era muito bom e segundo porque quando precisava sempre vinha uma ajuda extra do "além".



Eu ouvi uma história de vários dirigentes que Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians, quebrou em parte a força argentina nos bastidores quando brigou por cotas melhores na Libertadores. Com blefe ou não, chegou a ameaçar se retirar da competição, e os demais brasileiros também se beneficiaram. Hoje o prêmio para nossa realidade pode se dizer que é bom, mas na época era ridículo. Daí se descobriu que os clubes argentinos sempre recebiam a cota em dobro em relação aos brasileiros. Essa história corre até hoje e como não duvido que seja verdade, escrevo história com H e não estória com E.



Ao contrário do mítico La Bombonera, a Arena do Corinthians, em Itaquera, é muito "jovem". Não tem nem 10 anos, está construindo sua história. Que o Corinthians faça de Itaquera uma Bombonera brasileira nesse jogo de ida contra o Boca para definir depois, em Buenos Aires. O Boca não é mais o mesmo, mas La Bombonera ainda joga pelo time dentro e fora de campo. Boa sorte, Corinthians.