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GOL CONTRA


O futebol brasileiro continua na contramão da história. Não bastassem os escândalos na cúpula da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), os oportunistas andam fazendo das suas. Foi sancionada a lei do Mandante, que altera a regra de comercialização dos jogos no país. Agora o direito sobre a negociação do jogo cabe ao mandante e não aos dois clubes envolvidos no jogo. Foi um gol contra para o sonho de uma Liga, que tire poder da CBF e dê lucros diretamente para os clubes.


O Brasil vive um momento que valoriza o egoísmo e os interesses individuais. O populismo vigente, quer aproveitar um discurso atrasado para atingir duas frentes. Na primeira, ilude o aliado de plantão e com ele a torcida, com a falácia que vai aumentar ganhos do clube aliado com a medida. Na segunda frente, alimenta o cartório do futebol, bombardeando a possibilidade de uma quebra de poder, a formação de uma Liga Profissional que trate do futebol como negócio e não como negociata. A ideia básica é da medida é dividir para governar.


Como diz o Evangelho de São Matheus no Velho Testamento: “Não dê o que é sagrado aos cães, nem atirem perolas aos porcos, eles as pisarão e voltando-se contra você, os despedaçarão”. Ao dar o direito de transmissão ao aliado mandante, estão entregando o sagrado aos cães. A destruição virá cedo ou tarde. Para você entender onde essa medida vai chegar na prática, é necessário entender um pouquinho de economia. A Lei da Oferta e da Procura vai implodir o pensamento egoísta de alguns ao longo do tempo e o estrago estará feito. Lógico que o populista vai lucrar no varejo com a medida, o efeito não será sentido de imediato, e a divisão entre os clubes vai fortalecer suas más intenções.

Entenda, não existem no mercado número suficiente de interessados na transmissão dos jogos para contemplar todos os clubes que deveriam se beneficiar da medida. Lógico que os investidores irão colocar dinheiro em quem tem mais chances de alcançar benefícios comerciais. Flamengo, aliado, e Corinthians, com imensa maioria de torcedores serão os alvos mais atraentes para comprar os jogos. Com boa vontade dos investidores, clubes rivais diretos dos dois mais populares, podem arrancar uma parte do butim. Os demais, ficarão entregues nãos mãos de investidores menores e com menos dinheiro.


Para o comprador dos direitos, a má fase de um rival direto de Flamengo ou Corinthians, vai interferir na oferta pelos seus jogos, logico, para baixo. Além de auxiliar na elitização do mercado do futebol, a medida terá como efeito, minar a possibilidade da formação da Liga. Ora, o principal motivo para a união dos clubes numa Liga Profissional, é justamente o poder de comercialização da competição. Estando divididos em interesses egoístas, nunca ofertarão ao mercado uma competição.


A Lei do Mandante serve aos interesses dos primatas da bola. Aqueles que acreditam ser seu clube o centro do universo. São aqueles que acham que modernidade é colocar um H no meio do nome e criar sua TV interna, descobriu a pólvora. Esses primatas não levam em conta a inteligência de seus torcedores. Nem o fanatismo sobrevive às contas. Seu torcedor/consumidor, paga mais caro por metade da oferta de jogos e se quiser ver seu time como visitante, terá que se aventurar a pagar mais caro ainda. Exemplo, o time do H no nome, vende pacote de jogos anuais para obrigar o torcedor a comprar tudo, não o único jogo de seu interesse. É a esperteza agindo contra o torcedor.


Os egoístas dirão que agindo assim vão quebrar monopólio da Globo e vai chover streaming ( mídia da moda ) para absorver o mercado. Só não esclarecem que oferta boa será para Flamengo e Corinthians. Os demais ficaram com as sobras do mercado. Ninguém vai pagar alto para fatias menores do mercado. Isso é balela e conversa de aventureiro ou mau intencionado. A realidade é simples. Oferta maior para quem me rende mais audiência.


Por traz dessa aberração está a intenção de iludir aliados e conquistar votos entre os desavisados. É um gol contra para qualquer tentativa de aglutinação dos clubes visando a criação da Liga e eventual modernização do mercado. Quer atingir os atuais detentores dos direitos por vingança ou por não se aliar às conveniências do poder. Não torna a competição forte aos olhos do mercado, fatia a competição de acordo com os interesses egoístas de cada clube. É uma tremenda bola fora.


Um esclarecimento, a Globo tem contrato até 2024 com os clubes e antecipa dinheiro para todos os clubes. Não é crítica à Globo, é realidade, ela deve e tem obrigação de cobrar a conta dessa gente na hora de renovar. Aliás, deveria cobrar desde já. Afinal de contas, quem financiou o futebol até hoje foram os direitos de TV que ela adquiriu. Não foi político populista, cartola egoísta ou concorrência sem dinheiro. O consumidor/torcedor vai entender a fórmula do gol contra quando a conta chegar para assistir aos jogos.