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EMBALOS DE SÁBADO À TARDE


Eu esperava por ele a semana inteira.


Durante vários anos, tive um programa fixo para todas as tardes de Sábado: ir ao JCM. JCM, é bom explicar, significava “Juventude Cristã em Marcha”, uma espécie de serviço comunitário prestado pela paróquia de Santo Antônio do Pari, bairro da Capital paulista em que nasci e morei quando criança. Assim, mesmo os mais pequeninos, como era o meu caso, podiam passar agradáveis momentos nas dependências esportivas do local, que se resumiam, na verdade, a uma mesa de ping-pong e a uma quadra de futebol de salão com tamanho pouco maior do que a oficial, bem atrás da paróquia.

Esta seria apenas mais uma lembrança, daquelas que ficam perdidas mas que de repente vêm à tona na nossa memória, não fosse por um detalhe: por ser amigo do coordenador dos campeonatos de futebol, eu sempre tinha um lugar num dos dois times que, a cada semana, ganhavam nova formação. Eu não jogava nada, todo mundo sabia e o coordenador, que se chamava Edu, mais ainda. Mas o que não se faz por um bom amigo, não é mesmo? Pois então: ele fazia.

Desta forma, a cada semana, como disse, mudavam-se as formações dos dois times, mas nunca os “nomes” que eles tinham. Um, para a minha alegria, era o Palmeiras, e o outro, o Cruzeiro. Poucos tinham a camisa do clube – eu, aliás, era uma das raras exceções -, mas na nossa imaginação éramos os craques que, a cada sábado, decidiam o “Campeonato Brasileiro do JCM”, como chamávamos os clássicos que disputávamos no “gramado do Mineirão ou do Morumbi” – a cada semana mudava-se o “mando” de campo.

Evidentemente, jamais aceitei jogar no Cruzeiro. Daí eu ter, em todas aquelas tardes, defendido o Palmeiras. Sem nenhum talento, admito, mas com muita garra, juro. E ai de quem ousasse sugerir que, um dia, eu mudasse de time: com a personalidade característica de um garoto de 6, 7 anos, eu batia o pé e me fazia entender que se não jogasse no Verdão, não jogaria em nenhum outro time. E, se ainda assim insistissem, eu era obrigado a usar a maior arma que então possuía: o choro.

Assim, os pedidos de outros meninos palmeirenses para que eu lhes cedesse o lugar não costumavam ser frequentes, sob pena de adiar o início da partida e ela coincidir com a missa das 4. Se isso acontecesse, era o fim do jogo na certa, pois ninguém consegue rezar ouvindo, ao fundo da igreja, um bando de moleques gritando “Gol!” de vez em quando e palavras bem menos bonitas a cada lance desperdiçado.

E foi mexendo no meu passado, vasculhando cantinhos esquecidos das minhas lembranças, que me lembrei outro dia do JCM e dos embalos naquelas tardes de Sábado. A cada fim de semana, um jogo inesquecível acontecia, mas houve um que me foi ainda mais especial.

Uma das regras que usávamos era que deveria buscar a bola o autor do chute que a levou para onde quer que ela fosse parar. Às vezes – ou melhor, na maioria delas -, a pontaria pouco ou nada calibrada dos “craques paulistas e mineiros” mandava-a bem longe não só do gol como também da quadra. Quando caía no posto de gasolina que ficava ao lado, tudo bem: os frentistas sempre a devolviam. Porém quando, mais ágil, a gorduchinha ia parar do outro lado da rua, a rapidez na sua captura era fundamental para a continuidade daquela decisão, já que só havia uma delas. Mas é claro que, comigo, pela primeira vez a bola teve de cair num local onde jamais estivera.

Eu ainda me lembro bem do lance. César, o outro menino que tinha uma camisa do Palmeiras e que eu apelidara “Leivinha” por ter o 8 às costas, fez uma linda jogada pelo meio da quadra e me lançou, na ponta direita (eu sempre jogava por lá porque minha camisa tinha o número 7). De frente para a trave, eu não pensei duas vezes: fechei os olhos e enchi o pé. Gol? Que nada. A bola subiu, subiu, foi chegando cada vez mais perto da vidraça da igreja e eu, lá embaixo, rezando para que não acontecesse. Mas aconteceu: a bola espatifou os vidros e caiu dentro da Igreja.

Fiquei apavorado. Como iria contar para o meu pai que ele teria de pagar o conserto da vidraça da igreja? E pior: como mandava a regra, eu é que teria de buscar a bola lá dentro. Ainda tentei argumentar que poderia haver alguém por lá e que esse alguém poderia não gostar muito do que eu fizera, mas não teve jeito. Lá fui eu, torcendo para que ela estivesse vazia.

Dei a volta pelo lado de trás da quadra, entrei pela sacristia correndo mais do que se estivesse jogando. Vi um velho padre, de costas, olhando para frente da igreja. E percebi, também, que a bola estava bem atrás dele. Surdo, o tal padre nem se dera conta do que ocorrera. Pensei: se for rápido, pegar a bola e voltar, quando ele se virar para ver o que aconteceu já estarei longe. E assim o fiz: voei (como só podem voar os pássaros e os meninos de 6, 7 anos), em direção à bola, peguei-a nas mãos e num giro espetacular corri de volta para a sacristia. Tudo teria saído como previra se eu não tivesse, contudo, tropeçado no fio do microfone e me estatelado no chão.

Antes de levantar a cabeça, ainda tonto, pude ouvir: “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo...” O “amém” que sempre encerra a famosa frase impedi, com meu tombo, que fosse dito. Acreditem, meus amigos: além do velho e surdo padre, estavam também na igreja o sacristão, a comentarista e um monte de gente. Até hoje não hoje não sei por que, mas o fato é que naquele Sábado, justamente no qual eu chutei a bola que quebrou a vidraça e foi cair bem atrás do altar, a missa começou mais cedo.

A meu lado, o padre, atônito, me olhava sem saber se me repreendia ou se me socorria. Não dei tempo para ele se decidir: assim que pude, levantei-me, olhei para os fiéis, depois para o altar, fiz o sinal da cruz para disfarçar e saí correndo para dentro da sacristia. Quando cheguei à quadra, ela já estava vazia. Enquanto corria atrás da bola, a partida fora suspensa porque, como disse, ela e a missa eram mesmo incompatíveis. E, com a bola embaixo do braço, ainda consegui ouvir, lá dentro da igreja, o velho padre dizendo o “amém” que, havia pouco, meu pé torto adiara.

P.S.: Meu pai nunca pagou o conserto. Com pena, ninguém me delatou e, até hoje, não se sabe qual daqueles moleques quebrou a vidraça bem na hora da missa.

­­­­­­­­­Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 35 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br.



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