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Deni Menezes, o cara que me levou para os vestiários no dia da Fogueteira

Deni Menezes, o cara que me levou para os vestiários no dia da Fogueteira. Foi com imensa emoção que revi meu amigo Deni Menezes participando no dia 16/06 do Expediente Futebol, no FOX SPORTS, com o excelente João Guilherme e grande elenco. Além de ter sido um dos maiores repórteres da história do rádio, Deni ajudava todo mundo com dicas e atitudes. Eu pelo menos só tenho gratidão. No Rio de Janeiro ele e Israel Gimpel sempre foram meus grandes parceiros. Gostavam de mim de graça e a recíproca era super-verdadeira.



Hoje entrei no Instagram @jguilherme e contei uma história rápida. Estava, em 1986, em BH, transmitindo um treino da Seleção Brasileira, na Toca da Raposa, porque por incrível que pareça o rádio transmitia coletivos da Seleção, e aconteceu um gol e na hora de dar o detalhe já comecei empolgado: "Grande tento de Careca para o time titular, Maciel" e o Deni só me olhou e depois me falou com carinho: "Garoto, quando a bola entra o narrador grita gol ou tento? Fala gol, tento é muito longo e feio". Lição aprendida, jamais esquecida . Em tempo: O Garoto a que se referiu tinha na época 27 anos, portanto, perto dele eu era mesmo um repórter juvenil.



Mas no dia 3/09/1989 o Brasil jogou, no velho Maracanã, contra o Chile. Eu cobri todos os jogos do Brasil naquelas Eliminatórias para a Copa de 90. Já em Santiago, em 13/08, houve problemas com muita pressão e aquele gol esquisito dado por Jesus Dias Palácios, o qual chamávamos de Judas Dias Palácios, árbitro colombiano que viu sobrepasso de Tafarel. O chileno Jorge Aravena tomou a bola da mão do goleiro e antes que o Brasil formasse a barreira bateu rápido para Ivo Basay empatar o jogo. O árbitro confirmou o gol. O clima esquentou para a volta no Rio de Janeiro.



Sem Romário, expulso aos 10 minutos, em Santiago, por agredir Ormeño, que mais tarde também foi expulso, Careca acabou escalado como centro-avante titular. O técnico Orlando Aravena, parente do camisa 10 Jorge Aravena, desafiava a todos falando que o Brasil pela primeira vez na história não iria à uma Copa. Clima tenso no estádio todo.



Estava escalado para o jogo para fazer a meta com o Henrique Guilheme e o falecido Altair Bafa, nosso setorista, no RJ, iria ser um repórter solto na transmissão, o que chamávamos de o Outro lado do Jogo. Antes da jornada da Rádio Record, Osmar Santos veio falar comigo. "Preciso te pedir um favor. O Bafinha está me enchendo o saco. Ele é do Rio, diz que está em casa e acha que deveria ser escalado para ser meta hoje pelo menos. Você fez todos os jogos até aqui, poderia trocar com ele?". A resposta foi direta: "Sem problema, Osmar.



Era jogo de Eliminatória e pelos problemas, em Santiago, a Fifa/CBF achou melhor não ter repórter de Rádio em campo, o que já era normal em várias partes do Mundo, mas a nossa cultura de trabalho ainda nos colocava no gramado na época com aqueles fios enrolados, o chamado macarrão. Em Santiago ficamos no gramado e também era Eliminatória, mas no Maracanã de jeito nenhum. Eu fiquei na tribuna acima ouvindo personagens que foram ver o jogo e buscando outras informações.



Daí milagrosamente entra Deni Menezes na minha vida. "O que você está fazendo aqui?" "Ah, o Bafinha pediu para fazer o jogo como meta e está lá na cabine e eu vim para cá". A partir dali ganhei um Anjo da Guarda: "Olha, tenho um esquema aí. Vou descer quando faltar uns 5 minutos para acabar o primeiro tempo e vou entrevistar os caras saindo do gramado. No fim do jogo é o mesmo esquema. Vem comigo".



Avisei o José Maria de Moro, nosso técnico, para pedir ao Osmar para me chamar assim que terminasse o primeiro tempo. Era ainda aquele transmissor tipo tijolão que fora de São Paulo sem a escuta de rádio só se ouvia a chamada e ia embora no voo cego. Não deu outra. Osmar muito rápido no gatilho deu a deixa: "Onde você está Garotinho" e eu: "Osmar estou ao lado do gramado para ouvir os jogadores brasileiros" e fui ouvindo quem passava. Quando devolvi para Osmar só ouvi todo cheio: "Boa. Garotinho. Show, Show, exclusivo para o rádio de São Paulo, show, show. Isso é o rádio minha gente". Pensei, até que não foi tão ruim virar o terceiro repórter da transmissão.



Mas tinha mais: Careca fez 1 x 0 e logo depois um foguete é jogado no campo. Foi a falecida fogueteira. Roberto Rojas se aproveitou da situação, se cortou com uma lâmina que tinha escondido na luva e simulou que foi atingido. O árbitro argentino Juan Carlos Lostau viu que era uma grande "Broma" e encerrou o jogo depois de muita discussão e falso atendimento para o goleiro chileno. Quando o foguete caiu, o Deni só gritou para mim: "vamos descer, o esquema tá valendo"



Chegamos rapidinho por um caminho que sinceramente não saberia voltar nunca, mas o Deni conhecia bem os baixos do Maracanã. Vimos de perto o falso atendimento a Roja, entrevistamos o árbitro dizendo: "No, no passo nada, no passo nada. És una mentira" e acrescentava que relataria toda aquela palhaçada chilena. Lembro que fecharam todos os portões de acesso aos vestiários e ninguém conseguia descer, mas eu e o Deni já estávamos dentro ouvindo todo mundo e contando a história que acontecia na nossa frente. Um para o Rio de Janeiro e outro para São Paulo. Fomos ate uma cela improvisada conversar com a Fogueteira. Que gritava: "Foi sem querer, foi sem querer".



Resultado. Foi um dos meus melhores trabalhos e quando começou eu seria, por tudo que já contei, apenas um coadjuvante da jornada. A vida é assim. A Oportunidade e os bons amigos chegam na hora certa. Não sei se o Bafinha ficou contente com isso, me disseram que não, mas deve ter sido provocação do José Maria de Moro, que era muito brincalhão, e falava para ele; "Meu, você perdeu dentro do seu próprio estádio. Você disse que aqui é sua casa". É, isso também acontece, principalmente quando você é um pouco guloso e quer mais do que pode engolir.(risos).



Só sei que naquele domingo saí do Maracanã quase a meia noite. Afinal, repórter tem hora para chegar, mas não tem hora para ir embora. Perdi o avião de volta para São Paulo, só voltei na segunda. Valeu à pena. As matérias para a Record fui eu que fiz, mas quem me colocou dentro dos vestiários do Maracanã num jogo proibido para os repórteres foi o meu amigo Deni Menezes. Vocês acham que eu tenho que gostar desse cara ou não? E um detalhe importantíssimo. Tudo por camaradagem a um companheiro com o qual tinha grande amizade. Isso não tem dinheiro que pague, pois não tem preço. Obrigado, Mestre Deni Menezes.



Em tempo: Por causa desses acontecimentos o Chile foi suspenso pela Fifa e não pôde disputar as Eliminatórias para a Copa de 1994, nos Estados Unidos. O Brasil foi à Copa de 90 e acabou eliminado no quarto jogo pela Argentina de Maradona com um gol de Caniggia. Roberto Rojas foi banido do futebol, depois reabilitado para ser treinador de goleiros do São Paulo. O técnico Orlando Aravena e o zagueiro Astengo foram suspensos por 5 anos pela Fifa. E Rosinery, a Fogueteira, foi processada, posou nua para a Revista Playboy e já faleceu.