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DÊ-SE A SYLVIO O QUE FOR DE SYLVIO. E SÓ.


Uma das maiores balelas que sempre ouvi na minha vida é que, no Brasil, existem mais 100 milhões de técnicos de futebol. Esta história de que qualquer um, só porque torce por um time, sabe exatamente o que fazer para tornar este time vencedor é daquelas mentiras que, de tão absurdas, acabam ganhando ares de verdade para muita gente, sobretudo para aqueles que, de bola, pouco ou nada entendem. O fato, prezado internauta, é que de cada 10 fanáticos por futebol, nove não têm a menor ideia de tática, de técnica, de estratégia psicológica, de coisa nenhuma relacionada à área. Eles apenas torcem, apaixonadamente, para que tudo dê certo para a equipe que amam.


Um bom exemplo de tudo o que escrevi no parágrafo acima acontece agora no Corinthians. Seu treinador, Sylvinho, não pode nem empatar uma única partida que, segundo depois, as redes sociais são infestadas de reclamações, pedidos de sua imediata demissão e, não raro, até mesmo de ofensas pessoais. Sequer a trajetória do outrora lateral-esquerdo da equipe nos anos 90 é respeitada e levada em conta, e olha que vestindo a camisa do Timão o cara atuou em 265 jogos e faturou cinco títulos (os Paulistas de 1995, 1997 e 1999, a Copa do Brasil de 1995 e o Brasileiro de 1998). Não à toa, chegou até mesmo à Seleção Brasileira.


Fico aqui pensando o que o corintiano espera de seu time e de seu treinador. A classificação direta para a Copa Libertadores da América do ano que vem parece ser algo irrelevante à Fiel, como se com o elenco que possui pudesse Sylvinho fazer mais do que fez. Se puxarmos pela memória, nas primeiras rodadas deste Campeonato Brasileiro o Corinthians era apontado como candidato, sim, mas não a título ou vaga nas competições sul-americanas, mas ao rebaixamento. Foram necessárias as chegadas, sabe-se lá com que dinheiro, de quatro ótimo jogadores – Giuliano, Róger Guedes, Willian e Renato Augusto – para que a turma de Itaquera, para se usar uma expressão atual, “mudasse de patamar” e passasse a figurar na parte de cima, e não na parte de baixo da tabela de classificação. Se tais reforços não tivessem sido contratados, talvez nem Rinus Michels fosse capaz de livrar a equipe de mais um vexame.


Não estou, aqui, dizendo que Sylvinho é perfeito. Longe disso: treinador ainda em formação e talvez não preparado para assumir um gigante como o Corinthians, é óbvio que ele tem falhas – sua demora para decidir as mudanças que faz durante os jogos chegam a ser inacreditáveis – e insiste em decisões que, rapidamente, percebe-se que foram equivocadas – como a escalação de Renato Augusto como “falso 9” em alguns jogos deste Brasileirão. Mas daí a execrar o profissional toda vez que o Timão não ganha é de uma injustiça e de uma covardia ímpares e lamentáveis.


Manter ou não seu ex-lateral à frente do grupo a partir de ano que vem é uma decisão que cabe exclusivamente à diretoria corintiana, e não à torcida corintiana. Mas até entenderei se a opção for sua dispensa e a contratação de um treinador mais “cascudo” e capaz de levar o grupo o mais longe possível nas competições da próxima temporada. O que não aceito e nem entendo é culpar o técnico quando as coisas vão mal e, quando surpreendentemente o time cumpre uma campanha que nem se esperava, deixar de reconhecer seus méritos.

Há que se dar a Sylvio o que for de Sylvio. Nem mais, nem menos.


Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 15 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br