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CARTA PARA A SELEÇÃO


Em campo a seleção brasileira fez o seu papel, venceu o Paraguai fora de casa, 2 a zero e mantém superioridade incontestável nas Eliminatórias da Copa do Mundo. O pós-jogo era mais esperado do que o resultado de campo. Não acreditava numa postura madura dos jogadores. Era previsível que a pressão externa e os últimos acontecimentos na CBF, interferissem. Porém, o recado dado por jogadores e comissão técnica foi frustrante. Ficou claro que os interesses individuais contam muito. De certa forma a seleção foi um retrato do brasileiro.


Para começo de conversa, a realização da Copa América no Brasil foi politizada de fora para dentro do futebol. Entendam, sou contra Jogos Olímpicos no Japão pelo mesmo motivo que não concordo com Copa América no Brasil. Não é postura de esquerda ou direita. É uma posição sanitária. Também não concordo com Libertadores, Sul Americana, Copa do Brasil e competições nacionais de A à Z. Não me importo com quem transmite os jogos. Me incomoda é a possibilidade de transmissão do vírus num país sem vacina e com incontáveis polêmicas onde deveriam existir informação e prevenção.


Dito isso, é lógico que trazer a competição para o Brasil tem dois pontos fundamentais. A Conmebol agarra-se no aspecto financeiro e o governo no interesse do confronto político. O futebol ainda está longe de ser independente e de ser uma bandeira fora das quatro linhas. O recado dos jogadores da seleção diante da crise foi desanimador. Um manifesto contra a realização da Copa América sem tempero e profundidade. São contra e temem politizar o assunto. Nenhuma posição polêmica e como justificativa para jogar, somos trabalhadores.


O que eles não confessam, seus interesses pessoais estão acima de qualquer valor coletivo. Irão jogar para não desvalorizar suas carreiras e temem ser interpretados de forma errada. Exemplo, prioridade para férias e descanso numa temporada atípica. Para piorar, eles resolveram postar nas suas redes sociais o manifesto, ganhar visualização, curtidas e valorizar seus espaços sociais. Não importa se do outro lado da porta estivesse o mundo inteiro à espera da postura do coletivo. O que vale é o espaço pessoal valorizado pela oportunidade.


Neymar que reage contra “injustiças” do seu patrocinador em temas fora do esporte, mais uma vez sumiu de cena. Jogou bola e nem apareceu como ícone do futebol brasileiro atual. Só reforçou que, apesar do talento, está longe de ter postura de maior do mundo no esporte. Foi preferível levar para a coletiva um capitão ocasional, do que o principal nome da seleção brasileira.


Num momento histórico, para ser simples, causou tristeza a postura do auxiliar técnico Cleber Xavier. Ele preferiu falar em comemorar resultados da seleção. Um desvio do assunto quase exótico. Juninho Paulista, ressaltou a importância do trabalho de alto rendimento da comissão técnica para evitar o assunto que constrange, inclusive ele. Os questionamentos do presidente afastado da CBF e os ataques de políticos contra a mesma exaltada comissão técnica, foram deixados de lado. Desviar o foco para preservar a chance de disputar uma Copa do Mundo.


Fiquei decepcionado com uma pessoa que admiro. Que acerta e erra, mas que esperava uma reação do tamanho das agressões que sofreu nos últimos dias, Tite. Ele foi demonizado como comunista, amigo do Lula, bandeira vermelha, sugeriram que o Cuiabá precisava de técnico e até apontaram Renato Portaluppi para o seu cargo. Eu sou testemunha de que Tite sempre tentou evitar sua imagem ligada a políticos. Já foi pego de surpresa por candidato na porta do CT. Já teve que mandar parabéns por aniversário contra a vontade e até fazer aparição pós título junto com dirigentes do clube. Tudo contra a vontade, mas com pitadas de boa educação e até bom senso dentro das circunstâncias.


Já vi Tite engolir sapos e até sapos engolir Tite. Porém, seus valores e sua postura de não levar desaforo para dentro de casa, prevalecia. Foi assim no “fala muito” com o amigo Felipão, já perdoado. Foi assim na decepção com jogador no Corinthians. Foi assim em Oruro quando vencer ao preço de uma vida tocou Tite. Ele não gosta de “recados” e de traições. Para minha surpresa, estar em mais uma Copa do Mundo teve peso e o que eu esperava ser dito, ficou calado. Faltou um pouco de João Sem Medo para Tite. João Saldanha nem ligaria de ser chamado de comunista, nunca escondeu seu partido nem na ditadura militar, mas não trocou Copa do Mundo pelo desaforo de engolir “recados” de poderosos.


A carta não é discurso de esquerda ou direita. Por princípio, acredito que o esporte deve preservar vidas e andar de mãos dadas com a saúde de quem pratica e de quem acompanha o esporte. Não condeno jogadores, Tite e membros da comissão técnica. A pressão era grande. Outras seleções também cederam. Também já errei. Porém, democraticamente, deixo minha opinião. Ultimamente os interesses pessoais andam acima dos interesses coletivos. Não importa o custo das escolhas erradas. Perdem-se oportunidades históricas.