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Capítulo 7 e último: 2006, a Copa sem volta com o Brasil fora e o fim da Varig


É ano de Copa e então vou escrevendo algumas histórias sobre nossa cobertura na Alemanha-2006. Já teve o primeiro capítulo com as "trapalhadas" na ida, o segundo com a caça a Bilardo, técnico campeão do Mundo pela Argentina, em 1986, que fugia da gente como o diabo da cruz porque o seu cachê sumiu na mão de alguém do seu staff. Ele achava que o calote era da gente. mas não era. Você também ficou sabendo como foi conviver com a morte do humorista Bussunda em plena Copa do Mundo. Teve a engraçada história da flatulência que quase acabou em detenção no Supermercado e o caso do Lobo no Hotel. E no último a falta de condição física da Seleção Brasileira para a Copa com o atacante Barrigudo e a luta de Moraci Santana para colocar o pessoal em forma. Até novembro outras Copas também entrarão no nosso Radar e continuo desfiando histórias por aqui. Tudo baseado em fatos reais.



No dia 1 de junho, de 2006, o Brasil caiu nas quartas de final contra a França, 1x0, com um show à parte de Zidane. Ali a Copa ficou esvaziada para nós. Havia ainda a importância da Copa, Portugal de Luiz Felipe Scolari ainda estava na disputa, mas a nossa programação começava a voltar ao normal e os membros da equipe começavam também a arrumar as malas para voltar para casa. É sempre assim. Quando o Brasil deixa a Copa a saudade de casa aumenta mais. Afinal, são várias semanas de ausência.



Nós tínhamos um problema a mais. Toda a equipe da Jovem Pan, bem como de grande parte da imprensa, viajou pela Varig, que estava falindo. A ida foi numa boa, mas para voltar era preciso buscar alguma outra companhia que aceitasse a passagem da Varig. Nem todas aceitavam. Aliás, a grande maioria, não. A Varig, que chegou a ser uma das maiores empresas do Mundo, tinha várias parceiras, mas nessa hora ninguém queria perder dinheiro. Negócios são negócios. Houve até intervenção do governo para tentar arrumar a situação.



Na última semana de Copa, Nilson César, que fala um inglês muito bom, levou a mim e a vários companheiros na loja da TAP, em Munique, para contornar o problema e conseguiu. Enquanto isso a Itália ganhou da Alemanha, 2x0, e a França derrotou Portugal, 1x0. Portanto, Italianos e franceses decidiriam a Copa dia 9 de junho, em Berlim. Ironicamente no mesmo dia que confirmei minha volta pela TAP, o Wanderley Nogueira disse que o seu Tuta mandou me perguntar se eu não queria ir para a Itália acompanhar a repercussão da final lá na Bota. Reali Junior voltaria para Paris para fazer a mesma coisa em relação à França. Topei na hora. Ir à Itália é sempre bom.



Fui para o Aeroporto, comprei uma passagem da Alitália e desembarquei em Fiumicino num dia de greve geral do transporte. Foi um inferno sair de lá carregando duas malas e pagando o olho da cara para ter um táxi, que não era táxi, para me levar até algum Albergo, em Roma. Isso porque havia bloqueio e se os grevistas descobrissem que alguém estava fazendo o serviço deles tinha confusão. Quando entrei no carro, que um rapaz da empresa aérea me arrumou, um senhor, que era o motorista me disse: "Se pararem a gente diga que sou seu Tio e que fui busca-lo no Aeroporto". Trocamos cumprimentos e nos apresentamos com os nomes próprios para não dar nada errado. E lá fui eu em busca de um lugar para me aboletar. Não havia hotel de reserva.



A historia da final da Copa todos sabem. Houve empate entre Itália e França e nos pênaltis a Azzurra levou e levou também a Itália ao delírio. Fiquei numa pensão perto da Estação Termine e andei a pé por Roma em busca de algo diferente ou alguma coisa que valesse registro para a Rádio. A falta de transporte obrigava a gastar sola. Mas estive várias vezes, em Roma, e sempre achei que é uma cidade que é melhor andar a pé porque cada esquina é um monumento. Assim você aprecia mais a história e a paisagem. Eu pelo menos penso assim.



A festa da vitoria foi no Circus Maximus, onde no tempo dos Imperadores havia corrida de bigas, Foi divertido assistir a final no meio dos Tifosis. Fiz amizades com eles apesar do meu parco italiano (Entendo melhor do que falo) e eles eram gentis e diziam: "Hoje os brasileiros do futebol somos nós" lembrando as nossas conquistas em Copa do Mundo.



No dia seguinte, enquanto a Itália campeã voltava para sua casa e eu queria voltar para a minha casa. Descobri uma loja da TAP e fui cedinho visita-la. Fui recebido por uma simpática portuguesa que coçou a cabeça várias vezes quando lhe expliquei a situação: "Eu estava, em Munique, e minha passagem é da Varig. A TAP, na Alemanha, aceitou endossar minha volta, mas daí tive que vir para Roma. E agora preciso retornar daqui para São Paulo"



Ela deu um suspiro longo e acrescentou: "Tu sabes que a Varig acabou, não é?". Mas foi condescendente: "Olha, volte no final da tarde. Deixe essa passagem aqui e vamos tentar contornar esse problemão". Não tinha alternativa. E pensava que ela bem podia dizer esse problema, mas disse problemão. Aí já é mais complicadão. Comecei a contar o dinheiro e olhar para o cartão de crédito já pensando em possível compra da passagem de volta. Talvez fosse o único jeito de retornar diante das circunstâncias.



Bom, perdido por perdido, truco. À tarde voltei à TAP já me preparando para o pior. Quando me viu, a senhora sorriu e me chamou rapidamente para sentar: "Olha, minha sugestão é que você embarque amanhã para Lisboa, de Lisboa para Natal e de Natal para São Paulo, certo?" E eu: "Natal?". Sim, Natal, Rio Grande do Norte. Respondi rapidamente: "Ah, sim. Então já é Brasil. Para mim ótimo. Combinado". Pensei, bom de Natal, nem que seja no Pau de Arara, em São Paulo chegarei.



Assim foi feito. Em Lisboa uma rápida espera. Troca de avião, voo para Natal, cheguei a uma da manhã. Pensava em arrumar um hotelzinho para descansar porque o meu voo da Varig para São Paulo estava marcado para o fim da tarde. Fui chegando, entrando devagar, não tinha alfândega, nem nada. Cadê a Polícia Federal? Não sei, não vi ninguém e ninguém me parou. Quando me dei conta de que tinha despachado minhas malas direto para São Paulo, resolvi dar uma olhada melhor. Afinal, era tudo tão estranho naquele momento. Não deu outra, minhas malas estavam rodando sozinhas na esteira.



Entrei no Brasil como se fosse um viajante doméstico e por isso brinco que oficialmente até hoje ainda não voltei da Copa da Alemanha. Até hoje não sei o que ocorreu. Se era praxe, se ninguém se preocupou, se não esperavam voo aquela hora, só sei que a alfândega não existiu. Peguei as malas e quando ia sair do Aeroporto vi um senhor mexendo no balcão da Varig.



Encostei e expliquei a minha situação. Na verdade queria saber se o voo da tarde estava mesmo confirmado. "Olha, o da tarde eu não sei. Mas às 3 da manhã vai sair um voo daqui para São Paulo. Eu sei disso porque o avião está aí. Não vai ter outro. Esse vai chegar, em São Paulo, e será arrestado também como todos os outros aviões da Varig nos outros Aeroportos estão sendo arrestados. Então aconselho o senhor a ficar aí e ser o primeiro da Fila quando abrir o check in".



Foi o que fiz. Quando o embarque abriu, fui o primeiro a ser atendido, ninguém me perguntou nada. No Aeroporto de Guarulhos desembarquei normalmente, mas o avião foi arrestado como previa o homem de Natal. Deve ter sido um dos últimos ou o último voo da Varig. Para mim, com certeza, o último. Foi assim que voltei da Copa da Alemanha, em 2006, a Copa que para mim não teve volta. Ate hoje meu passaporte está em aberto.













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