• Futebol em Rede

As razões de Riquelme

Juan Román Riquelme foi um grande meia do futebol mundial. Fez história no Boca Juniors e na Argentina. Não gostava de dar entrevista, mas gostava de conversar sobre futebol. Quando veio decidir as semifinais com o Palmeiras, em 2001, fui ao Novo Hotel, no Morumbi, buscando informações do Boca. Cheguei na piscina do hotel onde vários repórteres argentinos, alguns amigos de longa data, conversavam com os jogadores sobre assuntos variados e até de futebol. Fui apresentado por um deles e entrei na conversa. Dava um programa extraordinário. Havia uma clara preocupação dos argentinos com o jogo da volta com o Verdão.



Perguntei a Riquelme se ele podia gravar uma matéria e ele respondeu: "No hablo el dia del juego", daí sorrindo um repórter argentino cutucou: "Você está falando com a gente aqui". Ele não se fez de rogado: "Acá, é una charla de amigos". E posso dizer, que guardadas as devidas proporções, era mesmo. Quando subi para almoçar entrei no elevador e encontrei Riquelme de novo e perguntei, conversando é claro; "Esse Carlos Bianchi é bom treinador mesmo?". Riquelme me olhou sério: "És Mas largo que entrenador". Não precisa dizer mais nada. Para o principal jogador do time Bianchi era apenas um cara mais de sorte que competência. É de Riquelme também a frase: "Experiência não se improvisa"



Por isso que discuto a atualmente superdimensionada função dos treinadores/professores. O futebol é um dos esportes mais simples que existem. A bola para chegar ao gol vem da direita, da esquerda, pelo meio, por cima ou por baixo. Não tem tanto segredo. Muitos buscam explicações e complicações para explicar o simples e o simples às vezes é mágico e genial. O jogador que não dá um drible a mais, que trata bem a bola, faz o passe na hora certa e arremata com precisão é craque. Poucos fazem tudo isso de uma vez só. Só mesmo os craques.



Cabe ao técnico de futebol buscar o melhor posicionamento e fazer o time chegar ao gol adversário da melhor maneira possível. Se tiver um atacante veloz um lançamento longo pode pegar a defesa adversária desprevenida e fácil de ser batida. Se tiver jogadores com bom toque de bola é melhor envolver o adversário com triangulações, tabelas e se tiver um bom chutador de meia distância é bom arriscar mesmo de fora da área. Um grande cobrador de falta, algo quase extinto no futebol atual por preguiça ou falta de treinos, pode ajudar a ganhar o jogo num lance só.



Tudo isso para atacar o adversário e tentar vencer o jogo. Mas nem assim é garantia de vitória, afinal, por isso se chama jogo. Você pode ser surpreendido por uma falha de um jogador, da arbitragem, da falta de pontaria de alguns e tomar um gol difícil de reverter. Por isso se defender também é uma tarefa importante e como se defender bem? No futebol atual é bom compactar seu time, ter zagueiros rápidos de preferência com boa saída de bola e minar as principais virtudes do adversário. O futebol, ao contrário do que se pensa, é um jogo de erros. Vence quem erra menos e quem aproveita melhor o erro do adversário.



O técnico está muito superestimado no futebol. Ganha muito, trabalha pouco, explica muito e via de regra pensa mais em não perder do que em ganhar. São medrosos profissionais. O dever do técnico é trabalhar mais nos treinos do que nos jogos. O jogo é a última parte do trabalho e não dá para ficar inventando se os comandados são comuns ou são presos a esquemas mirabolantes, que mais confundem que explicam.



Técnico tem que posicionar os jogadores, dar um sentido ao jogo, não ensina ninguém a jogar futebol. Isso não existe mais. O técnico é apenas um supervisor do jogo. Quem joga são os jogadores. Jorge Jesus é menor que o Flamengo, a sua carreira prova isso; Rogério Ceni jamais teria sido campeão Brasileiro no Fortaleza, o Flamengo é que o levou lá. Renato Gaúcho tinha no inicio um bom time no Grêmio, ao seu feitio, do seu jeito, mas quando precisou remontar se perdeu e apanhava de todo mundo. Agora ganha muito no Flamengo. Será que ele melhorou tanto assim?



Se o Abel Ferreira não viesse para o Palmeiras outro estaria ganhando no seu lugar. Continuaria sendo um técnico promissor no PAOK. Isso é defeito? Não, é a vida, mas é preciso saber o seu lugar. Técnico mais perde do que ganha jogo. Time que precisa de técnico é time ruim. Com time bom sempre dá caldo. Reconheço que para trabalhar num grande time é preciso ter qualidade também, mas às vezes cai do céu mais por sorte do que por competência e por isso se chama jogo, não equação matemática. Há muitos detalhes que mudam a história num segundo.



Arrigo Sachi, se não me engano, disse uma vez que um time falha no mínimo 3 vezes por tempo. Eu vou aumentar para pelo menos 5 vezes por tempo de jogo. Desde falhas mais simples a mais graves. Se o adversário aproveitar essas falhas vira basquete. Foi o que aconteceu nos 7x1 da Alemanha. O Brasil falhou 4 vezes seguidas e a Alemanha fez 4 gols. Não é normal que o adversário aproveite todas as falhas, mas quando ocorre é uma calamidade. Fica difícil de explicar. Se o técnico não atrapalhar já ajuda muito. Acho que o atual vice-presidente do Boca Juniors, um tal de Riquelme, concordaria comigo.