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AQUELA CASA SIMPLES

Ah, como eu me lembro dela!

Eu me lembro de que ela, por fora, era cor-de-rosa, com portão e janela marrons. E que por dentro às vezes era azul clarinha, em outras verde-piscina.

Eu me lembro de que para se entrar nela era preciso abrir o portão, subir dois pequenos degraus, passar por um minúsculo alpendre e esperar alguém vir abrir a porta. Era de lá que eu olhava o horizonte e sonhava com o meu futuro.

Eu me lembro de que na sala havia dois sofás azuis sobre um tapete vermelho, e sobre este uma pequena mesa com um sininho para se chamar a empregada –, muito embora empregada jamais tivesse havido naquela casa. Havia, também, um TV, onde via o Palmeiras jogando sempre de cinza, já que sua imagem só era colorida em minha imaginação. Mas era olhando para aquela tela que eu sonhava com a minha carreira.

Eu me lembro de que havia um longo corredor, caminho único para os dois quartos. No primeiro, dormiam minhas três irmãs; no segundo, meus pais e eu, numa cama de armar e em cima de um colchão de 5 cm de espessura, isso quando novo. Era uma cama dura, mas foi deitado nela que eu sonhava com as entrevistas que, um dia, iria fazer.

Eu me lembro de que havia uma cozinha e, nela, quase nada: uma mesa de fórmica com quatro cadeiras, um fogão, uma pia e uma geladeira comum, sem freezer. Sem graça, não é mesmo? Claro que sim. Mas foi sentado àquela mesa que eu escrevi minhas primeiras redações e sonhava que, de uma forma ou de outra, um dia todo mundo haveria de lê-las.

Eu me lembro de que havia um banheiro, e dentro dele, entre outras coisas, uma cortina de plástico e um chuveiro. Nem sempre ele esquentava o suficiente, mas era debaixo de suas águas que eu cantava o hino do Verdão, sempre em alto e bom som mas, admito, nem sempre de forma afinada.

Eu me lembro de que havia um quintal. Pequeno, estreito e de piso levemente inclinado à esquerda. Nem em sonho se comparava aos playground’s de hoje, mas era nele, para mim um grande parque de diversões, que eu ensaiava os primeiros gols que eu, um dia, sonhava em marcar pelo Palmeiras. Não deu certo, sabemos, mas valeu a tentativa.

E depois de tanto me lembrar, me fica a certeza de que foi naquela casa simples que eu vivi os melhores anos de minha vida.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br