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APELIDOS


Além de não desistir nunca, o brasileiro é, antes de tudo, um criador e um gozador. E quando se trata de criar apelido, então, ele é praticamente imbatível.

No Brasil dá-se apelido para tudo e para todos. E, como se sabe, o Brasil é pródigo em jogadores com os apelidos mais estapafúrdios que podem existir. Além de monstros sagrados como Zito, Didi, Vavá, Garrincha, Edu, Tostão e Pelé, não podemos nos esquecer que também Sapatão, Ventilador, Alfinete, Bife, Tinteiro, Mão de Onça, Chinesinho, Redondo, Buiú, Chiru, Gatãozinho [até hoje não é sabido se se tratava de um pequeno gato grande ou de um grande pequeno gato], Catatau, Fefeu, Dimba, Gavião, Esquerdinha, Careca, Escurinho, Cuca, Balalo, Bozó, Friaça, Grapete, Picolé, Balu, Girafa, Brecha, Canhoteiro, Flecha, Cacetão e Rolinha foram são alguns dos apelidos que já passaram pelos times profissionais pelo país.

Nesse particular de apelidos o futebol de várzea é ainda mais imbatível. Ou foi.

A várzea já foi muito mais do que uma grande extensão de terraplana às margens de um rio ou ribeirão. Em décadas passadas, a várzea era o lugar em que desfilava o mais puro futebol brasileiro. Terra batida, com um pouco de grama aqui e ali – ou vice-versa –, era sempre a várzea a primeira a ver nascer o craque. E também o cabeça-de-bagre.

Na várzea sempre foi difícil se encontrar alguém que fosse chamado pelo nome. Havia, por exemplo, um time cujo goleiro se chama Marcos Dias, mas a várzea cidade toda o conhecia pelo apelido: Calendário. Afinal, o que “marca os dias” é o calendário. Ou não é?

Um outro time de várzea tinha Tíbia e Perônio, a única dupla de ataque que era incapaz de dominar uma bola que não fosse de canela.

Também foi ali que, nos anos 60, se viu surgir o apelido do apelido. Como aconteceu com o Pica-Pau, apelido de um conhecido beque, que também passou a ser chamado de “Tem Três” por motivos que não necessitam ser explicados.

Às vezes acontecia de aquilo que parecia ser um apelido ser um nome registrado em cartório. Esse era o caso do atacante E-batata. Ao ser perguntado pelo técnico qual era o seu nome verdadeiro já que E-batata, provavelmente, deveria ser apelido. Mas, para a surpresa do “professor”, o jogador disse que E-batata era seu nome de batismo. E explicou o porquê.

— É o seguinte, quando eu nasci, meu pai queria me registrar com o nome de Emílio. Mas mamãe não gosta de milho. Ela gosta de batata. Por isso é que, em vez de E-milho ela mandou me registrar com o nome de E-batata.

Houve também um jogador apelidado de Cueca que o técnico não se recusava a substituir mesmo que não estivesse jogando nada. Motivo: o técnico não queria correr o risco de ser acusado de haver tirado Cueca em pleno jogo.

Mas independente do apelido, na várzea, nenhum jogador, por pior que fosse, gostava de ficar no banco de reservas. Essa era a bronca de Paulo Cego, que acompanhava o Xingu, um dos muitos times da várzea paulistana, na década de 40.

O goiano Paulo Cego não tinha esse apelido por acaso. Usava grossas lentes de grau, que mais pareciam dois alvos de tiro ao alvo encaixados numa armação.

Se o pior cego é aquele que não quer ver, Paulo Cego era o pior míope: aquele que pensa que vê. Ele se considerava um injustiçado. Afinal, o técnico do time era incapaz de perceber que se o sentido da visão não era perfeito, em compensação o seu sentido do olfato era muito bom. E olfato é fundamental para um artilheiro – como ele julgava ser –, pois é preciso ter “faro” de gol.

Agora, aqui entre nós, ficava difícil para um técnico acreditar no “faro” de um sujeito que, ao pensar que se tratasse da bola, já havia tentado arrancar o capacete de um pobre soldado da polícia militar que estava assistindo ao jogo. Sem falar na partida em que ele arrastou pela mão um pai-de-santo até o meio do campo para atender a um jogador, pensando que fosse um médico. E tudo isso ocorrera porque ele ficava no banco de reservas, pois numa das poucas vezes em que entrara em campo, na hora de cobrar um escanteio, acertara espetacularmente a bunda de uma galinha desavisada que ciscava próxima à bandeirinha.

Porém, mesmo sem jogar Paulo Cego foi o pivô de uma das maiores brigas, um dos maiores quebra-paus, que a várzea de São Paulo já assistiu.

Naquela manhã de domingo, o Xingu jogava uma tensa e violenta partida contra um dos mais tradicionais rivais. No mesmo time em que Paulo Cego era reserva atuava um ponta-esquerda chamado Rodrigues, o Tatu, que mais tarde chegaria até a seleção brasileira. E o Tatu era dono de uma verdadeira bomba de canhota.

No campo, o banco de reservas ficava ao lado do gol e – no segundo tempo – quem defendia aquele gol era o adversário.

Eis que foi marcada uma falta a favor do Xingu. Rodrigues, o Tatu, preparou-se para bater e mandou a bomba. A bola passou raspando a trave e – PIMBA! –foi explodir na cara de Paulo Cego.

Sem saber do que se tratava, Paulo Cego entrou em campo aos gritos de “É BRIGA! É BRIGA!” e acertou o primeiro que “viu” pela frente. O tempo fechou e o jogo não chegou ao final.

Paulo Cego só voltaria a se sentar no banco de reservas um mês depois. Na mesma data, aliás, em que o pobre do meia-esquerda, seu companheiro de equipe, conseguiria abrir de novo o olho esquerdo. Ah, o soco daquele Paulo Cego...


Magalhães Jr. – o Maga

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