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AOS PÉS DE “ABÉIS”


Já faz algum tempo que o nome “Abel” aparece diariamente na mídia esportiva brasileira. Primeiro, claro, ele veio acompanhado do sobrenome “Braga”, que identifica o ex-zagueiro e já há anos um dos treinadores de maior êxito no futebol nacional, tendo em seu currículo inclusive um Mundial Interclubes com o Internacional/RS, em 2006. Atualmente, comanda o Fluminense/RJ e já está garantido na fase semifinal do Campeonato Carioca.


Mas, há pouco mais de um ano, um outro “Abel” também passou a ser manchete quase que diária nas páginas esportivas, sejam elas escritas em papel ou em telas de cristal líquido, e também na programação do rádio e da TV. Este, cujo sobrenome é “Ferreira”, dado o pequeno período em que vive por aqui conseguiu um sucesso quase que inacreditável no Palmeiras, já contando em seu currículo com quatro títulos expressivos (dentre estes duas Copas Libertadores da América). Por isso, não são poucos os meus colegas jornalistas que já apontam o treinador como o favorito a substituir Tite à frente da Seleção Brasileira no começo de 2023.


Os dois “Abéis” têm, sim, muito talento, e seus currículos – ainda que muito diferentes em termos de tempo de carreira – provam tal afirmação. Mas há uma diferença fundamental entre o Braga e o Ferreira: o primeiro, mesmo quando a fase não lhe é favorável, mantém a humildade e não se coloca acima de ninguém; já o segundo, mesmo quando a fase lhe é favorável, não perde a chance de lembrar a todo momento que, pelo fato de ser europeu, se julga superior a todos nós, em sua opinião reles sul-americanos subdesenvolvidos.


O treinador palmeirense, ao contrário do treinador tricolor, transforma suas respostas nas entrevistas pós-jogo em palanque para sua arrogância. Recentemente, resolveu dar pitaco na forma como o clube deveria investir o dinheiro que ganha com premiações e possíveis negociações, como se esta não fosse uma decisão unilateral da presidência alviverde. Sua principal característica é começar as respostas aos questionamentos (por ora ainda filtrados pela assessoria do clube) dizendo algo como “esta é uma boa pergunta”, quando dela gosta, ou com uma risada irônica, quando não a considera pertinente, como se tivesse a capacidade de julgar o trabalho de um jornalista mesmo sem jamais ter assistido a uma aula na faculdade.


Chegou a insinuar que seriam poucos os profissionais de Imprensa brasileiros que realmente entendiam de futebol, pois falar de futebol até a mãe dele falava, e insinuou, também, que aqueles que criticam o seu trabalho não sabem o que dizem – interessante é que, quando lhe são feitos os elogios que de fato vem merecendo, ele não se preocupa se tais palavras partem de quem, em sua opinião, conhece ou não futebol.


Seu mais recente “show” foi ocupar quase a metade do tempo da entrevista depois do jogo do último domingo, contra o Guarani/SP, para comentar os recentes e lamentáveis episódios de violência entre torcedores no Brasil e no México, como se sua opinião a respeito do assunto tivesse alguma relação com o jogo que havia pouco acabara. E ameaçou que tal situação poderá influenciar em sua decisão de cumprir ou não até o final o seu contrato, que terminará em 31/12 próximo com o Verdão. Sob o mantra “todos somos um”, projeta uma imagem de humildade, mas a cada dia deixa mais claro que este “um” tem de ser ele próprio.


Pelo que já fizeram em suas carreiras, Abel Braga e Abel Ferreira têm o futebol brasileiro a seus pés. A diferença é que para o português a bola tupiniquim – e todos os que dela fazem parte – deveria também estar de joelhos.

Márcio Trevisan é jornalista esportivo há 34 anos. Escritor com cinco livros publicados, começou no extinto jornal A Gazeta Esportiva, onde atuou por 12 anos. Editou várias revistas, esteve à frente de vários sites, fez parte de mesas redondas na TV e foi assessor de Imprensa da S. E. Palmeiras e do SAFESP. Há 17 anos iniciou suas atividades como Apresentador, Mestre de Cerimônias e Celebrante, tendo mais de 450 eventos em seu currículo. Hoje, mantém os sites www.senhorpalmeiras.com.br e www.marciotrevisan.com.br. Contatos diretos com o colunista podem ser feitos pelo endereço eletrônico apresentador@marciotrevisan.com.br