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Agora é história. O dia que eu e Romeu vimos o Palmeiras ser "garfado", em La Bombonera

Agora é história. O dia que eu e Romeu vimos o Palmeiras ser "garfado", em La Bombonera. É isso, foi no jogo em que Ubaldo Aquino deixou de dar um pênalti claro no volante Fernando já no fim do jogo. Palmeiras e Boca estava 2 x 2 e Alex fez um dos melhores jogos da sua vida. Naquela noite jogou mais que Riquelme e deixou os argentinos boquiabertos. Com o pênalti o Palmeiras poderia ter voltado com uma vitória.



Na decisão dias depois no velho Parque Antártica novo empate de 2 x 2 com grande atuação de Riquelme e o Palmeiras perdeu nos pênaltis. O time então era dirigido por Celso Roth, que fez grande campanha na Libertadores, mas que o torcedor alvi-verde não gostava. Faz tempo e o tempo vira história.



Eu estava em Buenos Aires pela Jovem Pan e Romeu César pela Rádio Globo. Fomos para o estádio do Boca no mesmo táxi. Também tornava o transporte mais barato. Fazíamos isso em muitas viagens pelo mundo afora. Na Copa do México, por exemplo, a Rádio Record tinha dois carros à nossa disposição para se locomover na capital e "cansei" de dar carona para o grande Candido Garcia, então na Pan, para ir aos treinos da Argentina, no Clube América. Sempre foi assim. A gente era "adversário" no ar, mas fora havia muita amizade e camaradagem.



Foi muita engraçado até chegar em La Bombonera, um estádio já na época obsoleto, velho, mas com muito charme no bairro de La Boca, um lugar que já teve mais glórias na capital argentina. Voltei para lá anos depois com minha família e minhas filhas quiseram visitar Caminito, que fica em La Boca, e o estádio. Valeu pela história, mas tem curtiço demais a céu aberto. Pelo menos para o meu gosto, mas o vinho da casa continua ótimo.



Na ida, Romeu ia contando histórias e de vez em quando o motorista também interagia para falar um pouco da sua Argentina. Tem aquele velho ditado, ou uma velha brincadeira, aqui na América do Sul: "Compre um argentino pelo que ele vale e venda pelo que ele acha que vale. Certamente lucrará o dobro". É uma broma, uma brincadeira, tenho grande amigos por lá e não são assim. Só um pouquinho. Com certeza falam também de nós e talvez com muita razão.



Dito isto, paramos numa esquina já nas cercanias do estádio esperando um sinal abrir e apareceu um cara todo sujo, com roupas puídas, vendendo doces, balas ou algo assim. A gente até se assustou embora morando no Brasil onde isso é normal. O motorista olhou para o "vendedor": "Tenemos mucha ambre por aqui" (Temos muita fome aqui). O homem ficou revoltado: "Yo no, Yo no" (Eu não, eu não). Todos começamos a rir e o Romeu com aquelas tiradas: "Pô, o cara tá todo ferrado e dando uma de gostoso. Que coisa".



Virou brincadeira nossa. Quando estava testando minha linha com a Pan, Romeu passou por mim e gritou: "Yo no, Yo no" e foi assim até o dia seguinte. No Aeroporto quando estava fazendo check-in escuto sua voz de trovão bem atrás de mim: "Yo no, Yo no". Poucos entenderam, mas nós entendemos muito bem e foi só risada de novo e virou uma marca, uma brincadeira nossa.



Nessa mesma viagem se passou outra coisa engraçada que também virou tema de muitas das nossas brincadeiras e conversas. O Flávio Prado repete até hoje e morre de rir. Conversando com alguns torcedores antes do jogo, em La Bombonera, quisemos saber porque Gallardo, hoje técnico do River, e Ortega não estavam na Seleção, já que eram tão bons quanto Riquelme. A resposta foi inesquecível: "Como estos tenemos muchos" (Como esses temos muitos). Tá, bom assim?



Mas como Romeu César, que se foi hoje de madrugada aos 65 anos de idade vítima de COVID, temos poucos por aqui. Era um cara muito especial. Vai fazer muito falta. Cara bom e do bem. Extraordinário profissional que deixa um belo legado. Preferi contar alguns momentos felizes de nossa convivência do que apenas lamentar, mas a gente vai lamentar sempre. Vai com Deus, meu amigo.