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A vida já existia antes da Internet

Nessa semana o mundo percebeu como era a vida e principalmente a comunicação na época pré-digital. Foi só cair Instagram, Facebook e WhatsApp para as pessoas ficarem perplexas e muitos sem saber o que fazer. Pois há bem pouco tempo era assim e a gente vivia maravilhosamente bem e até era muito feliz. Nada contra as evoluções da ciência e tecnologia, que vieram teoricamente para facilitar a nossa vida, mas que ao mesmo tempo nos deixam bitolados em coisas inúteis e desnecessárias como se não houvesse nada além. Garanto que há. Houve antes e haverá agora também se souber usar bem essa nova ferramenta.



Na minha profissão então era uma bela loucura. Quantas vezes subimos em postes para ligar linha de transmissão, "roubamos" um telefone para conectar com a Central, "pegamos" uma linha do orelhão, fizemos pica pau nos telefones com cadeado para conseguir dar uma notícia. Era uma aventura e tanto.



Observação: Pica Pau era você bater na tecla onde o fone descansava relativamente ao número que queria ligar. Tinha que ser muito rápido senão dançava e a ligação não se completava. É mais difícil de explicar do que de fazer. Em jornadas internacionais dependendo do país tinha que pedir a ligação com muita antecedência e a Embratel completava a chamada. Vi o grande Di Stefano brigando no centro de imprensa, de Dallas, na Copa de 94, nos Estados Unidos, porque a operadora espanhola não aceitava o "cobro revertido" ou ligação a cobrar. Ele só queria falar com sua casa, mas não completava.



Uma vez, em Belo Horizonte, num treino do Brasil, na Toca da Raposa, a nossa linha não fechava. Então o esperto técnico de som José Maria de Moro esticou mais de 200 metros de fio e puxou a linha de um orelhão que ficava fora da Toca. Ficou lá de guarda para ninguém mexer naquela "gerinconça" e a polícia apareceu querendo prende-lo.



Conseguiu contornar a situação explicando que estava apenas trabalhando e que a ligação era a cobrar. Só estava usando o aparelho. A polícia aceitou o argumento e daí a pouco aparece o Zé Maria em meio a uma entrevista que eu fazia no campo. Olhei para ele: "Zé, estamos no ar?" e ele com ar de moleque: "Claro, deixei a policia tomando conta da nossa linha" e foi verdade. Os policiais avisaram aos transeuntes que era uma operação oficial e que ninguém podia usar aquele orelhão por um tempo.



Em 1986, eu, Oswaldo Maciel, o saudoso Loureiro Júnior (Nós 3 aí na foto) e o técnico Antonio Jurca fomos fazer dois jogos da Seleção do Brasil, na Alemanha e Hungria. Em Frankfurt foi tudo bem, mas na linda Budapeste foi um sofrimento. A linha não fechava com a central da Record, em São Paulo. Depois de muito tentar e quase na hora de abrir a transmissão, veio um técnico da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, e avisou ao Jurca que alguém da Record tinha entrado em contato com sua central e avisado que nosso som chegava bonito, em São Paulo, mas que não conseguiam falar com a gente. Era para o Maciel contar até 50 e abrir a jornada.



O coordenador Edson Scatamachi disse que deu tão certo que teve tempo até de botar as vinhetas de abertura enquanto Maciel contava vagarosamente, sem atropelos. Fizemos mais de 3 horas de transmissão às cegas. Nós nos ouvíamos, mas não sabíamos como estava aqui. Ficamos sabendo só no dia seguinte já que para falar com o Brasil tinha que esperar muito tempo para a telefonista húngara completar a ligação com a Embratel.



Lembro que às vésperas da Copa de 86, em Guadalajara, Telê Santana quis fazer um treino secreto e naquela época, pode parecer exagero, o Rádio transmitia os treinamentos. E daí? Como fazer? Se não estou equivocado nos detalhes, mas lembro da história que a Jovem Pan com José Silvério, Wanderley Nogueira e Bento de Oliveira subiram num telhado, ou algo assim, e deram um jeito de fazer a transmissão. Isso foi muito comentado na época, no México. Isso era o Rádio puro.



Bem-vinda a tecnologia que nos livrou desses atropelos, que deixou tudo mais fácil, mas que também entorpeceu um pouco nosso espírito "aventureiro" para enfrentar situações adversas. Essa nova geração não terá essa satisfação e não é culpa dela também. Mas em alguns momentos, e isso vale até hoje, é preciso ter iniciativas para tocar em frente e dar um jeito de fazer mesmo com tudo contra.



Uma vez, quando a internet ainda estava engatinhando e as rádios estavam abandonando os cartuchos para colocar toda a sua programação nos modernos computadores, cheguei bem cedo a redação da Jovem Pan e estava um alvoroço desgraçado. Tinha caído todo o sistema e poucos sabiam o que fazer. Tinham que redigir várias coisas para a programação, fazer contatos, e nem um computador respondia.



Os mais velhos foram ao depósito e resgataram as velhas máquinas de escrever, voltaram no tempo por algumas horas e no ar tudo continuou normal. O que me chamou a atenção foi a falta de iniciativa de muitos garotos que ficaram esperando o tal sistema voltar. A Tecnologia é ótima, mas não pode embotar a mente e nem o empreendimento das pessoas. Daí é retrocesso. O mundo não para para você resolver as situações, ele continua girando e você que se vire.