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A melhor Seleção de todos os tempos estava na cabeça de Zagallo e nos pés dos gênios

A melhor Seleção de todos os tempos estava na cabeça de Zagallo e nos pés dos gênios. Neste tempo de isolamento social o mundo se redescobre em várias coisas. A conquista do tri mundial, em 1970, é um marco da história. Nunca antes, e possivelmente nem depois, uma Seleção teve tanta técnica, beleza de jogo e inovação tática como aquele Brasil, que num domingo como hoje, 21 de junho, se sagrou tricampeão e ficou em definitivo com a Taça Jules Rimet.



Por linhas tortas acabou chegando lá mostrando que o grande time vai se juntando com seus próprios pedaços. Saiu do Brasil sob forte desconfiança. Não se sabia como Zagallo, um jovem treinador campeoníssimo como jogador, se viraria como treinador em uma Copa do Mundo. Já tinha mostrado trabalho no Botafogo e tinha sido bi mundial na ponta-esquerda da Seleção de 58 e 62. Portanto, Copa não era novidade para ele. Mas como técnico era virgem no assunto.



Muitos dizem que Zagallo foi campeão com o time de João Saldanha, que fez uma extraordinária campanha nas Eliminatórias, mas o esquema era bem diferente. Dizer que não houve contribuição de Saldanha também é mentira. Ele devolveu ao Brasil a mentalidade vencedora e botou Pelé e Tostão jogando juntos, o que para muitos era impossível, já que ambos nos clubes ocupavam praticamente a mesma posição. Mas para os gênios nada é impossível e Saldanha percebeu isso claramente.



Saldanha para enfrentar os times sul-americanos que eram bem mais fracos que o Brasil na época escalou um bem definido 4-2-4, que às vezes virava 4-1-5 porque Gerson também atacava e fazia gols. Só Piazza era volante defensivo e mesmo assim era bom tecnicamente. Felix: Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo: Piazza e Gerson: Jairzinho, Tostão, Pelé e Edu. Esse foi basicamente o time das Eliminatórias, que goleou todo mundo e confirmou classificação com 1 x 0 contra o Paraguai, gol de Pelé, no Maracanã. Observação: Joel era titular na Seleção e reserva no Santos onde a dupla era formada pelo argentino Ramos Delgado, excelente zagueiro, e o super técnico Djalma Dias.



Saldanha misturou os três grandes do Brasil da época: A defesa era toda do Santos que na frente tinha também Pelé e Edu, Piazza e Tostão eram do Cruzeiro e Gerson e Jairzinho do Botafogo. O goleiro era do Fluminense. Tostão e Pelé se entenderam tão bem que teve um jogo contra a Colômbia que a imprensa de lá disse que não sabia se Tostão era o Pelé branco ou se Pelé era o Tostão negro.



Mas como no Brasil o resultado é esquecido no dia seguinte, por não ir bem em jogos amistosos/treinos quando se preparava para a Copa, Saldanha caiu. Teve também briga até com ameça de revolver contra Yustrich, então treinador do Flamengo. Outro ponto sempre discutido na história é que João Saldanha era um comunista declarado e estávamos em meio a uma Ditadura no Brasil e os militares não o queriam como técnico na Copa. Já imaginaram um Comunista ganhando a Copa comandando o Brasil? A demissão foi a resposta.



Caiu o João sem Medo e veio Mario Jorge Lobo Zagallo, que por muito tempo foi muito perseguido e injustiçado por muita gente da imprensa, que dizia que ele trabalhava para os militares. Era como se conquistar a Copa fosse um desserviço para o país porque agradaria aos verdes olivas de plantão. Mas essa pecha jamais foi colocada no time que fez os gols e derrotou com categoria os adversários. A Seleção do campo era imune à essa crítica, o problema era alguém que teve a "ousadia" de assumir o lugar de Saldanha, já que Dino Sani e Oto Glória declinaram do convite, muito mais por medo de repetir o fracasso de 66, na Inglaterra, e não por algo político.



Zagallo mudou o esquema tático do time. Não dava para ir à Copa jogando num aberto 4-2-4 contra adversários fortíssimos e tendo no grupo a Campeã do Mundo da época, a Inglaterra. Era preciso muita qualidade técnica e muita disposição para ocupar espaços no gramado. Foi aí que surgiu a versão 4-3-3 que com a bola também podia ser mais ofensivo com a chegada de Gérson.



Tostão foi de uma eficiência e de uma genialidade à toda prova. Saia da área, armava o time, ocupava o lado esquerdo quando Rivellino ia para o meio e para mim foi o melhor jogador do Brasil da Copa. Tinha um QI a mais jogando futebol e uma técnica extraordinária. A maioria das grandes jogadas do time passaram pelos seus pés. Pelé experiente e genial ajudou a compor o meio e em várias ocasiões apareceu jogando coletivamente dando segurança para o time todo. Tostão jogou mais que Pelé na Copa? Não, porque Pelé é Pelé e ponto final, mas sua atuação foi preponderante na conquista brasileira.



Em relação ao time de Saldanha houve mudança de três nomes na defesa com Piazza virou zagueiro e Clodoaldo ganhou a condição de titular na cabeça de área. No meio entrou Rivellino no lugar de Edu. Esse Rivellino pela esquerda é a cara do Zagallo de 58 e de 62, quando ele fechava também o meio-campo e era surpresa para os adversários. Ou seja, dizer que a Seleção campeã não tem nada a ver com Saldanha é mentira. Diria que Zagallo completou bem uma obra iniciada por Saldanha nas Eliminatórias.



Zagallo utilizou em 6 jogos da campanha no México além dos titulares apenas mais 5 atletas. Na estréia contra a Tchecoslováquia (4x1) Paulo César Cajú entrou no lugar de Gérson que sentiu contusão. Ele seria titular contra a Inglaterra (1x0 e Romênia (3x2). Gérson só voltou contra o Peru (4x2), mas de novo foi substituído por Paulo César no segundo tempo. Para quem não sabe Paulo César Caju era mais um craque da constelação brasileira. Jogava demais e jogou muito nessas partidas também.



Contra a Inglaterra depois de fazer uma das mais bonitas jogadas da história das Copas culminando com o gol de Jairzinho com a bola passando também por Pelé, o genial Tostão foi substituído por Roberto Miranda. No jogo contra a Romênia entraram no segundo tempo Marco Antonio e Edu respectivamente nos lugares de Everaldo e Clodoaldo. O falecido zagueiro Fontana, do Cruzeiro, fez seu único jogo na Copa. Nesse dia Rivellino não jogou e o meio-campo teve Piazza, que voltou a ser volante, Clodoaldo e Paulo César.



Contra o Peru além de Paulo César no lugar de Gérson no segundo tempo, Roberto Miranda também mais uma vez entrou durante o jogo, mas desta feita no lugar de Jairzinho. Nos jogos contra Uruguai (3x1) e na final contra a Itália (4x1), Zagalllo começou e terminou com o mesmo time: Felix; Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo: Clodoaldo, Gérson e Rivellino; Jairzinho, Tostão e Pelé. Esse é o time "perfeito" que entrou para a história definitivamente. Precisava de mais?



Em TEMPO: Na Copa de 70 eu tinha apenas 12 anos de idade. Lembro de todos os jogos e de todos os gols, mas não sabia analisar bem o futebol. Isso tudo é o que eu penso daquele Brasil, mas é claro que nesse tempo todo falando e cobrindo futebol conversei com várias pessoas daquela época e pude confirmar muita coisa que pressentia e outras que queria entender. A verdade é que aquela Seleção continua nos dando boas lições até hoje. Aquela Copa mudou a minha vida. Comecei a ver o futebol de outra maneira e talvez lá no inconsciente decidiu ali minha carreira como repórter esportivo. Obrigado, Brasil-70. Essa também devo a você