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1976: O ano que estive no Exército

Diante de tantas ameaças dos últimos tempos envolvendo golpes e terrorismo com um Exército complacente e até conivente, lembrei de 1976. Eu então com meus 18 anos fui convocado para fazer o Tiro de Guerra, tipo segundo ou até terceira divisão do Exército. Nada mais do que isso. Mas havia tarefas a cumprir e ordens também. A disciplina dura tentava ser imposta e ainda estávamos na Ditadura Militar no Brasil.



Quando me apresentei o comandante perguntou o que eu fui fazer lá? Se ele esperava alguma declaração de amor à bandeira, ou às armas, deve ter ficado decepcionado. "Vim fazer o Tiro de Guerra, Senhor. Fui convocado para isso". Havia outros que pareciam estar na Disney de tão felizes. Eu, hein? Sabia que seriam apenas 6 meses e depois vida que segue. Nada contra quem escolheu continuar a carreira, que como se sabe não parece exigir muito e com uma aposentadoria aos 55 anos de idade. E ainda poderá dizer que lutou pelo Brasil tentando ser mais brasileiro que os outros, por exemplo.



Na época eu já trabalhava na Rádio Alvorada e ajudava meu pai, quando dava, na feira. E ainda tentava estudar. A vida era assim. Luxo pouco, trabalho muito. Portanto, acordar cedo não era problema, já estava acostumado, mas para acomodar as coisas meu horário no Tiro de Guerra era à noite com algumas escalas diferentes de vez em quando.



No Tiro me mandaram lavar latrina, desmontar armas e montar de novo, engraxar coturno, fazer barba todos os dias para ser mais apresentável para o sargento e por aí vai. Os nossos fuzis eram muito velhos, pareciam ser relíquias da guerra do Paraguai. Davam um coice forte quando atiravam e viviam com problemas. Nunca fui fã de armas, mas era obrigado a manuseá-las.



Não sei até hoje se atiro bem ou mal. Nos treinamentos nunca caprichei na pontaria. O meu alvo sempre estava se "mexendo". Vai ver que ventava muito na ocasião (risos). Mas a verdade é que num dos treinamentos iniciais haviam fileiras de três soldados e na minha frente tinha um canhoto que atirava demais. Parecia que as balas passavam no mesmo buraquinho do alvo tal a sua precisão.



Sargento Coelho quando viu aquilo se aproximou do rapaz: "Você é muito bom atirador. Olha, está convocado para nossa equipe de Tiro. Tem um Campeonato entre os QGs do Estado de São Paulo e precisamos de bom atiradores. O treinamento da equipe é toda segunda-feira. Não deixe de comparecer".



Quando eu e os outros da fila de trás ouvimos isso praticamente tomamos a mesma decisão. "Vamos errar todos os tiros. O quê? Segunda-feira é o único dia de folga que nós temos, vou treinar coisa nenhuma". E para mim fazia mais sentido ainda. Filho de Feirante sabia que a segunda-feira era nosso domingo.



A partir daí atirava a esmo. Daí apareceu um outro sargento, cujo nome não me lembro, mas mais parecia o Tainha, que era o apelido que nós demos a ele e com certeza nós éramos os seus Recrutas Zeros. Ele ficou bravo. "Estão fazendo de propósito. Vieram arar o chão. Só estão atirando na terra. Tem que mirar no alvo, imbecis" e a gente: "Sargento, são esses fuzis que estão todos tortos. Não tem jeito, a mira é ruim".



Aí ele se enfezou: "Então é o fuzil? Vou mostrar para vocês". Começou a disparar e só poeira que levantava. Ninguém riu para não ser punido, mas uma coisa tenho certeza. Eu não queria saber de acertar o alvo e até hoje não sei se conseguiria, mas ele foi o pior atirador que vi na minha vida. Para não ficar feio, disse que ia atirar deitado para se acomodar melhor ao fuzil. O resultado foi pior ainda. Conclusão. Se levantou bravo e mandou todos os fuzis para o conserto. Ufa, escapamos bem dessa. O problema era o fuzil (risos).



Houve uma sexta-feira que entrei de guarda no fim da tarde e só sairia no domingo pela manhã. De 4 em 4 horas lá estava o tonto segurando um fuzil velho com uma baioneta na ponta fingindo que era insuperável. Se alguém quisesse entrar não teria como evitar. Era só figuração mesmo. E alguns dos comandantes queriam assustar os soldadinhos: "Olha, cuidado quando estiver de guarda. Já houve um aqui que dormiu, caiu em cima da baioneta e morreu". Deve ter sido algum integrante dos Três Patetas. Se bem que alguns chegam até a capitães e generais, não é?



O problema é que no domingo pela manha havia uma marcha de 20km até o Campestre, localidade na região de Piracicaba. Bom, eu sem dormir, cansado, barba por fazer, fui convocado para a prática. Quando passou em revista o pelotão, o sargento batia com uma régua, ou uma varinha de marmelo, no meu rosto e queria saber porque eu não fiz a barba. "Sargento, estou de guarda desde sexta-feira. Não deu tempo". Ele não aceitou a justificativa: "Ah, é? Depois da marcha vai ficar aqui no quartel lavando latrina" e assim foi, mas em pensamento fiz vários elogios a santa mãe dele.



A gente fazia vários treinamentos no quartel. Um deles era ensarilhar armas. Novamente fileiras de três soldados. Eu estava na fila da esquerda. Sob comando virava para direita dando de cara com o soldado do centro e lhe entreva minha arma. O mesmo se sucedia depois com o soldado do outro lado. Depois as três armas eram ensarilhadas, uma segurando a outra, todas na mesma posição. Toda vez que fazíamos esse exercício vinha o aviso: "Derrubar a arma é crime. Se deixar cair será punido"



Treinamos exaustivamente esse movimento e eu nunca fiquei no meio para receber as armas e ensarilha-las. Só assistia. No dia do exame final adivinha onde fiquei? Bem na fila do meio. Tinha gente do comando do Estado para nos avaliar e etc, etc. Diziam quem quem fosse reprovado nos exames finais teria que fazer o tiro novamente. A gente nunca acreditou nisso, mas era uma boa ameaça.



A explicação pela mudança da minha posição é que alguém faltou porque estava hospitalizado. Então, tá. Quando olho para o chão vejo uma saliência no terreno e penso, vai dar ruim. Mais 6 meses aqui não aguento. Começamos o exercício, viro para esquerda, pego o fuzil, coloco junto com o meu no meio. Viro para a direita, pego o fuzil do outro soldado e quando olho as armas começam a se deslocar. Só as minhas. é claro, as outras estavam perfeitas. Não tive dúvidas. Me agarrei às três armas e fui o único que sai diferente na foto. Uma beleza. Mas o sargento não gostou nem um pouco.



Quando me chamou na sua sala expliquei a situação e concluí: "Sargento, o senhor diz que se derrubar a arma é crime, derrubar três então seria uma desgraça maior. Optei por segura-las do jeito que deu. Pelo menos esse crime não cometi". Disse que ia pensar no assunto, mas dois dias depois eu estava aprovado.



O Sargento Coelho era boa pessoa e entendia nossos problemas, mas às vezes o cargo o obrigava a ser mais duro. Lembro que num domingo pela manhã eu saí do tiro de guerra e fui a pé até a feira para ajudar meu pai e meus irmãos a carregar o caminhão e também pegaria uma carona para a casa. A feira era na Paulista, um bairro de Piracicaba, e ia até bem mais tarde.



Meia hora depois lá estava o Sargento Coelho fazendo compras na barraca do meu pai. Nos cumprimentamos educadamente e continuei meu trabalho. Quando retornei ao Tiro na terça-feira, ele me chamou: "O que você estava fazendo na feira domingo depois que saiu daqui?" Não precisava esconder nada: "Sargento, fui ajudar meu pai". A partir dali, ele me olhava diferente e até me aliviou em muitas tarefas. Segundo ele, quem trabalha não deve ser atrapalhado. Foi o que ouvi dele depois que a nossa relação no Exército tinha acabado. Obrigado, Sargento. Agradeço até hoje.



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